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sexta-feira, 6 de abril de 2012

A última música

Noite escura. Sem luar, sem estrelas. Apenas o vento, a chuva, o frio, nada mais, nada além. E para esquentar, um cobertor e chocolate quente. A música é a única companhia. Olhando pela janela as gotas de chuva caem descendo vidro abaixo. A mente vagando sem destino, trazendo lembranças de tudo que aconteceu durante a vida. Cada pessoa que conheceu cada momento que passou cada chuva que tomou cada sorriso que conquistou cada beijo que experimentou cada olhar que cativou cada dúvida que criou e desvendou cada toque que deu e recebeu cada movimento que fez e sentiu. Cada hora, cada minuto, cada segundo. Cada ano, cada mês, cada dia. Tudo envolvido em uma vida. Tudo passa tão rápido. Hoje você nasce amanhã não mais está aqui. Tudo tão complexo. Um mundo tão grande, uma vida tão pequena. Muito pouco tempo para gozar da felicidade sem fim. Quantas lágrimas rolaram, quantas brigas aconteceram. E as gargalhadas? Quantas existiram. A, as músicas, quantas músicas marcaram. Tudo tão repentino, tudo tão intenso. Hoje levanto, à tarde não sei se vou me deitar. Hoje adormeço. O amanhã é um mistério, não sei se farei parte dele.

Se soubéssemos o valor de viver, não desperdiçaríamos tempo dormindo. Não perderíamos tempo chorando. Esqueceríamos dos problemas e viveríamos intensamente. Não sofreríamos adiantado. Comeríamos menos e cuidaríamos mais da saúde. Sonharíamos mais. Reclamaríamos menos. Seríamos protagonistas e não figurantes.
Uma dimensão de prazeres e não sabemos aproveitar. Medo? Medo do que? De viver? Não, não existe medo. Existe insegurança. Não deveria, mas existe. Ela nos faz pensar. Faz-nos desistir de sonhos, mesmo sendo sonhos. Faz-nos ver o lado “ruim” da existência humana. Mas o que seríamos de nós sem ela, sem a insegurança? O que seríamos de nós sem a dor?
A música para, ou acho que está parando, sumindo de vagar na atmosfera. Sinto-me longe. Onde estou, para onde vou? O que está acontecendo? É a alma. Uma luz lá no fundo. Cheiro de rosas, som de harpas, liras, coros magníficos. Não era essa música que ouvia, mas essa é melhor. Fecho os olhos e sigo sem destino, sem medo de cair, sem insegurança. 
A luz aumenta e uma voz linda “recita” meu nome. 
Tenho que ir, me chamam! Agora estou longe, não tem mais volta. Não tem como ir lá novamente. Mas aqui é bom também, melhor que lá. Gostei do cheiro das flores, do som das harpas e liras. Farei novas amizades. De lá? Ah! A única coisa que lembro é a música. A mais bela, maravilhosa e significativa música. 
Lá embaixo os olhos se fecham. Não existe chuva, não existe vento, não existe chocolate quente, não existe cobertor. É tudo fictício. Existe apenas a música. É, aquela que ficou, isso mesmo. A última música. 


Por Mariane N. Souza

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