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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

As mãos do Artista

Nos traços do pincel
A dor ganha forma
As lágrimas são subjetivas
Os sonhos são reais

Nos traços do pincel
O treino vira profissão
A paisagem vira visão
O beijo, invenção


Nos traços do pincel
O artista é quem cria
Vira “deus”, o arquiteto
No desenho em que fazia

Por Mariane N. Souza
Foto: Google Images

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Gosto de chuva

Cícero era um rapaz muito elegante, dono de uma empresa conceituada em sua região. Um chefe flexível e sorridente, compreensivo com seus funcionários e muito bonito. Alto, porte atlético, sorriso largo, cabelos escuros e curtos, sempre muito bem arrumado. Cícero vivia bem vestido, com roupas sociais. Porém tinha um enorme defeito: um “Super Ego”. Orgulho era seu segundo nome. Vivia contando vantagem sobre tudo. Sua casa era melhor, seu trabalho era o melhor, tudo que fazia era melhor que o outro. Todas as vezes que alguém de uma classe “inferior” lhe dirigia a palavra, ele ignorava, como se não estivesse ouvindo, o que revoltava muita gente. Um belo dia, o elegante rapaz foi interrompido por uma senhora que lhe oferecia salgados. A mulher um pouco mais velha foi insistente e enquanto não conseguiu a atenção do vital homem não parou de insistir. Cícero com toda sua arrogância e orgulho, olhou com desprezo à senhora e disse que o que ela vendia não era plausível a alguém de porte como ele e continuou sua caminhada. Se passado 20 anos, o forte rapaz e totalmente seguro de si, já não existia mais. Cícero perdera sua empresa em uma jogatina e caiu em lamúria, vivia de lamentações, entretanto continuava com o orgulho de sempre. Uma noite ao sair de um bar, incrivelmente bêbado encontrou a mesma mulher dos salgados, que agora já arrastava os pés pela calçada por conta da idade avançada. Ao avistá-la, Cícero caiu em gargalhadas, referindo-a como alguém sem valor algum. Ao apontar à senhora, tropeçou e caiu em frente ao bar que acabara de sair, não conseguindo levantar do local - devido ao alto consumo de álcool -, continuou a gargalhar. Olhando para cima, Cícero enxergou alguns furos na cobertura externa do local. A chuva caía lentamente como de costume naquela época do ano e, de repente, enquanto Cícero observa as goteiras caírem, uma gota cai dentro de sua boca, descendo pela garganta junto com o orgulho que ali jaz. Ao lado, a senhora – motivo de toda euforia – fica a observar. O homem engasga com a minúscula gota de chuva e com o álcool que corre por suas veias e embaça seus olhos. Cícero morre ali, implorando por ajuda. A natureza apaga de vez o orgulho e a arrogância do que foi um dia um grande empresário. Acaba, ali mesmo, na frente de um mísero bar, Cícero, afogado pelo próprio ego. Ao concretizar a cena, a mulher continua sua longa caminhada, com o guarda-chuva preto arrastando-se pela calçada e a multidão que ajuntou-se voltam à suas vidas, como se nada tivesse acontecido.

Por Mariane N. Souza
Fotos: Google Images


O pó dos sapatos

Ele era pai de três filhos. Pai e Mãe. Sem dormir durante três anos, trabalhava todos os dias e noites. Os cochilos, que tirava, eram o único descanso de todos os dias. Sem folgas, nem feriados, Luizinho trabalhava incansavelmente. No rosto o sorriso largo, que os olhos claros enfatizavam com o brilho da alegria em ver os filhos bem vestidos indo à escola . Segurança, pedreiro, marceneiro e tudo aquilo que se pode imaginar. O homem do boné verde e corpo atlético, era amigo de todos. Dos drogados e da “mais boa” gente. Dos 'flanelinhas' à classe mais paupérrima. Ah! Luizinho, homem de braços fortes e fé mais forte ainda. Somente Deus sabe do esforço incessante desse moço para cuidar dos filhos - que ele tanto amava -. Na pequena cidade no sul do estado, todos o conhecia. Fazia sol ou chuva, lá estava Luizinho. Trabalhando para ganhar o pão de cada dia, até que certo dia a morte lembrou-se do doce homem, que enxergava a vida verde esperança como a cor dos seus olhos. E o rapaz, que há três anos não dormia encontrou o descanso eterno naquele mesmo cemitério, em que ele próprio muitas vezes vigiou e jardinou. A terra comeu o corpo de Luizinho, junto com suas roupas, seu dinheiro e tudo aquilo conquistado durante anos. Ele se fora e deixara no mundo os três filhos criados. E mesmo sabendo de toda história do valente sonhador, até o pó dos sapatos eles bateram ao deixar sua carne enterrada.

Por: Mariane N. Souza
Foto: Google Images



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