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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Casebre lá dos Fundos

Todas as noites, dona Verônica estava em sua cadeira de balanço olhando para o céu e fazendo tricô. Cada balançar de sua cadeira fazia com que o ringir dá tábua velha do assoalho escondesse os múrmuros e sussurros que vinha lá de dentro. 
Verônica era uma senhora viúva com cerca de 60 anos que vivia nas redondezas de Survivor, um pequeno município de interior, continha pouco mais de três mil habitantes. Desde que nasceu viveu naquele lugar. Seus pais morreram e lá continuou. Nunca se casara, nem filhos tivera. 
A cidade de Survivor era conhecida pelos muitos casos de desaparecimento de crianças. Todo ano cerca de 20 crianças desapareciam. Sempre que descobriam alguma gravidez na região, as igrejas começavam grupos de orações e cultos rogando pela vida da inocente que estava por nascer. Porém poucos conseguiam sobreviver. 
Policiais e investigadores buscavam solução para o problema, mas não conseguiam solucionar o caso. Nem mesmo os corpos eles encontravam. Havia mais de 800 famílias atormentadas pela dor da perda. Houve apenas uma criança, há 15 anos, em que surgiu em um terreno baldio com o corpo totalmente “fatiado”. A única pista que os investigadores tinham. A partir daquele dia passaram a procurar animais ferozes pela redondeza, além da antiga cogitação de que existia um maníaco por aquelas bandas 
Dona V., como era conhecida, sempre ia à cidade e ficava horrorizada com as histórias que ouvia sobre as crianças desaparecidas. 
Certo dia os investigadores resolveram ir para uma mata que tinha no fim da cidade, perto de onde a dona Verônica residia junto com seus cachorros. Ao entardecer resolveram chegar até a casa da simpática senhora para pedir-lhe um copo d’água. Ela os recebeu com muita hospitalidade, ao invés de apenas um copo de água ofereceu-lhes um café e algumas bolachinhas. Como estavam o dia inteiro caminhando ali por perto resolveram aceitar o convite da senhora e tomar o café. O que eles não esperavam era que aquele café seria o desfecho de algo há 60 anos em andamento. Enquanto estavam sentados à mesa saboreando as deliciosas bolachinhas, um dos investigadores ouviu um choro fraco, quase sussurrado vindo de alguma porta nos fundos da casa da doce senhora. Então a perguntaram de onde viera aquilo ou o que era. Ela respondeu, com receio, que não sabia. Então deixaram de lado e resolveram continuar o café. Alguns minutos depois o choro voltou e continuou, intrigados os visitantes pediram para dona V. deixar-lhes ir até os fundos para ver de onde viera aquilo. Sem hesitar a senhora levou-os até o local e voltou para dentro de sua casa. 
No quintal tinha um casebre velho, quase caindo, onde os investigadores resolveram entrar. Lá dentro era cheio de teias de aranha e móveis velhos cobertos com lençóis. Ao andar pelo casebre no canto direito quase embaixo de uma escrivaninha velha o som do assoalho mudou, ficando um pouco oco. Então resolveram abaixar e procurar algum porão ou tábua solta. Nesse momento o choro já não mais existia. Ao abaixar encontraram uma alça, feita de ferro, que ao puxar abria uma pequena porta. Uma escada que de mais ou menos cinco degraus dava passagem a algum lugar, escuro e fedorento, então um dos investigadores desceu para ver o que estava guardado lá, quando de repente a porta do casebre bateu com estrondosa força. Era a dona V. com uma velha garrucha em mãos e um pequeno caderno de capa marrom no bolso direito do avental azul que usava. 
Num estalo a garrucha foi disparada e os dois correram para detrás dos móveis escondendo-se da senhora. Dona V. os chamava e dizia que o porão era o seu paraíso, onde seus filhos moravam e que não podiam mexer, era particular. 
Os rapazes assustados tentaram conversar com ela perguntando por que esconder tanto algo, já que era um paraíso, que os deixasse ver e usufruir dele. Ela caminhando devagar dizia baixinho e com voz doce que era só um local em que queria deixar preservado sem que ninguém soubesse, já que era sagrado para ela. De repente dona V. sumiu e um estrondo enorme ouviu-se, os rapazes correram ao encontro da velha que já estava caída coberta de sangue na cabeça. Verônica atirara na própria cabeça. Os rapazes voltaram ao casebre para ver o que tinha dentro do porão. Ao entrar um cheiro horrendo se alastrou, o calor era infernal e a visão ainda pior. Mais de oitocentas cabeças cortadas e penduradas em varais feitos de nylon, os corpos jogados no canto da parede de terra, podres. Era perceptível o rosto das crianças limpos e sempre com uma marca de batom vermelho claro na face direita de cada um. A mesma cor do batom que dona V. usava. 
Ao voltar para a delegacia um dos investigadores tirou do bolso um caderno de capa marrom, aquele que a dona V. guardava no avental. Era um “diário”, em que ela escrevia sobre cada uma das crianças mortas, como fazia para capturá-los e porque cortava suas cabeças. Ela os tinha como filhos, já que não tivera filho durante toda sua vida. 
Verônica sofria de um distúrbio mental. Seus pais morreram quando ela tinha 20 anos e a partir de então sentia-se muito sozinha e todos os dias ficava observando a felicidade das crianças com seus pais, passeando pelas ruas ou saindo da escola, foi enquanto que a obsessão e os desaparecimentos começaram. 
Os investigadores acreditavam que o choro que ouviram era da alma de alguma daquelas crianças para salvar as tantas outras, que a demente senhora V., iria, ainda matar. Foram lidas apenas duas páginas do diário, já que as palavras eram escritas com sangue, que Verônica guardava em um tinteiro sobre a velha escrivaninha no casebre lá dos fundos.

Por Mariane N. Souza

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