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domingo, 25 de janeiro de 2015

Alemanha

A Gestapo estava aí. Carneirinhos arrasados e devastados pela dor da perda. Cabeça por cabeça, uma atrás da outra. Cabelos compridos, curtos, encaracolados e lisos. No momento era o que se via. Sobre as calçadas pessoas horrorizadas e nas ruas, pobres miseráveis envergonhados por ser quem eram. Escárnio da “hierarquia racial”. Pobres “animais” caminhando ao matadouro.
Adentravam as residências com a força e gentileza de bois e demônios, caçando inocentes. Ao ouvir batidas em portas ou ver “cavalos marchadores” com listas de casa em casa, sabia-se como seria o futuro daquelas funestas almas.
Idosos, adultos, jovens e crianças choravam desguarnecidos por todos os cantos. Não sobrava nada além de lágrimas, lares vazios e medo. Pelo ar sentia-se o odor de corpos queimados, advindos do obscuro.
Alguns viviam embaixo de sótão, escondidos em porões, vendo o sol nascer e ir embora, por frestas. A guerra estava aí e ninguém mais sabia como seria o fim daquele dia. Seria uma bomba? Um fuzilamento? Campo de concentração ou só mais um dia de terror antes do adeus fatal?

Por Universo das Palavras
Cena do filme: A Lista de Schindler. Fonte: Google Images

sábado, 15 de novembro de 2014

Era uma vez um "Lar"

Era um espaço, visto como um depósito de idosos, onde todos que por lá passavam olhavam com pena daqueles que lá moravam, mas ao chegar à esquina posterior ao local já esqueciam tudo que viram por cima do muro alto e voltavam às suas casas e ao cerne de suas famílias. 
Mesmo com tanta pena, ninguém entrava para dizer bom dia, muito menos para oferecer ajuda, só pensavam como deveria viver naquele lugar de silêncio, esperando o último dia. 
Porém, aqueles que adentraram contam sobre a leveza que sentiram no ar, falam do canto dos passarinhos que adornavam a “compacta” pracinha centrada muro adentro, com uma gigante árvore que ornamentava seu espaço interno. Seus galhos eram tão grandes que quase chegavam às pequenas casas dividas entre duas pessoas, compostas por dois quartos, cozinha e banheiro. As rampas davam a firmeza que os pés e pernas necessitavam para que se mantivessem em pé, os corrimãos sentiam o esforço que as cuidadosas mãos faziam para passar por eles todas as manhãs, tardes e noites.
Visitantes ainda contam, sobre algumas das muitas histórias que se podia conhecer lá dentro. Havia aqueles que de cara fechada e outros que acolhiam com o sorriso. Nas janelas os olhinhos que esperavam uma visita, mas não de qualquer um, mas daquele que tinham o mesmo sangue pulsando no coração.
Cada porta contava uma história, todas elas que faziam o coração palpitar. Cada experiência uma lágrima de quem escutava com atenção, mas em todas as histórias, todas as conversas, os visitantes contam que a tristeza era escondida atrás do sorriso carente que esperava mais uma visita. Quem adentrava era acolhido com clamor, sabedoria e fraternidade. Aquele que os abraçavam sentiam seu corpo arrepiar e o abraço estendia-se por segundos, minutos... 

Certa vez ela fora visitar o tal lugar dos muros altos, encantada com tudo que vira adentrou as pequenas casas, em uma delas encontrou duas senhoras, onde viu o branco e o preto, a calma e a ansiedade, o silêncio e o barulho; era o significado da oposição. Aprendeu artesanato e ouviu-as com zelo, mas uma delas cativou-a intensamente, era a mais nova que lá vivia, a atenção era tanto, que quando a abraçou, na garganta veio um nó, que insistiu em ficar. No sorriso largo via-se compaixão, escondida pela comoção e a intensa vontade de chorar. Talvez lembranças tivessem surgido ou era apenas o que o momento lhe proporcionara. A senhora que lhe retribuiu o abraço pediu que ela voltasse.
E era no olhar perdido da mais nova moradora do “cárcere do abandono” que a visitante encontrava o significado da palavra SAUDADE.

Por Universo das Palavras
Fonte: Google Images

domingo, 14 de setembro de 2014

Lençol Branco

A mão leve escorregava pelo corpo macio e sedoso da moça dos lábios vermelhos. Olhares voluptuosos. Cada toque trocado os estremecia. Nas faces ruborizadas o suor deslizava com cuidado. Sobre a cama o lençol branco transparecia a pureza dos dois jovens amantes. Corpos arrepiados e arredios. Aos poucos as bocas se encostam e numa fração de segundos o ambiente transcende desejo. Dois corpos emaranhados sentiam o pulsar forte do coração tentando escapar. Tremores, gritos e euforia. 
Então tudo para e o ambiente se acalma. E lá estão os jovens enamorados encharcados de prazer no seu primeiro deleite, sob o lençol que já não é mais branco.

Por Universo das Palavras
Fonte: Google Images

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Gosto de chuva

Cícero era um rapaz muito elegante, dono de uma empresa conceituada em sua região. Um chefe flexível e sorridente, compreensivo com seus funcionários e muito bonito. Alto, porte atlético, sorriso largo, cabelos escuros e curtos, sempre muito bem arrumado. Cícero vivia bem vestido, com roupas sociais. Porém tinha um enorme defeito: um “Super Ego”. Orgulho era seu segundo nome. Vivia contando vantagem sobre tudo. Sua casa era melhor, seu trabalho era o melhor, tudo que fazia era melhor que o outro. Todas as vezes que alguém de uma classe “inferior” lhe dirigia a palavra, ele ignorava, como se não estivesse ouvindo, o que revoltava muita gente. Um belo dia, o elegante rapaz foi interrompido por uma senhora que lhe oferecia salgados. A mulher um pouco mais velha foi insistente e enquanto não conseguiu a atenção do vital homem não parou de insistir. Cícero com toda sua arrogância e orgulho, olhou com desprezo à senhora e disse que o que ela vendia não era plausível a alguém de porte como ele e continuou sua caminhada. Se passado 20 anos, o forte rapaz e totalmente seguro de si, já não existia mais. Cícero perdera sua empresa em uma jogatina e caiu em lamúria, vivia de lamentações, entretanto continuava com o orgulho de sempre. Uma noite ao sair de um bar, incrivelmente bêbado encontrou a mesma mulher dos salgados, que agora já arrastava os pés pela calçada por conta da idade avançada. Ao avistá-la, Cícero caiu em gargalhadas, referindo-a como alguém sem valor algum. Ao apontar à senhora, tropeçou e caiu em frente ao bar que acabara de sair, não conseguindo levantar do local - devido ao alto consumo de álcool -, continuou a gargalhar. Olhando para cima, Cícero enxergou alguns furos na cobertura externa do local. A chuva caía lentamente como de costume naquela época do ano e, de repente, enquanto Cícero observa as goteiras caírem, uma gota cai dentro de sua boca, descendo pela garganta junto com o orgulho que ali jaz. Ao lado, a senhora – motivo de toda euforia – fica a observar. O homem engasga com a minúscula gota de chuva e com o álcool que corre por suas veias e embaça seus olhos. Cícero morre ali, implorando por ajuda. A natureza apaga de vez o orgulho e a arrogância do que foi um dia um grande empresário. Acaba, ali mesmo, na frente de um mísero bar, Cícero, afogado pelo próprio ego. Ao concretizar a cena, a mulher continua sua longa caminhada, com o guarda-chuva preto arrastando-se pela calçada e a multidão que ajuntou-se voltam à suas vidas, como se nada tivesse acontecido.

Por Universo das Palavras
Fotos: Google Images


O pó dos sapatos

Ele era pai de três filhos. Pai e Mãe. Sem dormir durante três anos, trabalhava todos os dias e noites. Os cochilos, que tirava, eram o único descanso de todos os dias. Sem folgas, nem feriados, Luizinho trabalhava incansavelmente. No rosto o sorriso largo, que os olhos claros enfatizavam com o brilho da alegria em ver os filhos bem vestidos indo à escola . Segurança, pedreiro, marceneiro e tudo aquilo que se pode imaginar. O homem do boné verde e corpo atlético, era amigo de todos. Dos drogados e da “mais boa” gente. Dos 'flanelinhas' à classe mais paupérrima. Ah! Luizinho, homem de braços fortes e fé mais forte ainda. Somente Deus sabe do esforço incessante desse moço para cuidar dos filhos - que ele tanto amava -. Na pequena cidade no sul do estado, todos o conhecia. Fazia sol ou chuva, lá estava Luizinho. Trabalhando para ganhar o pão de cada dia, até que certo dia a morte lembrou-se do doce homem, que enxergava a vida verde esperança como a cor dos seus olhos. E o rapaz, que há três anos não dormia encontrou o descanso eterno naquele mesmo cemitério, em que ele próprio muitas vezes vigiou e jardinou. A terra comeu o corpo de Luizinho, junto com suas roupas, seu dinheiro e tudo aquilo conquistado durante anos. Ele se fora e deixara no mundo os três filhos criados. E mesmo sabendo de toda história do valente sonhador, até o pó dos sapatos eles bateram ao deixar sua carne enterrada.

Por Universo das Palavras
Foto: Google Images

sábado, 26 de maio de 2012

Mais uma história de amor

Estavam todos sentados, olhos arregalados e ouvindo mais uma história de amor. No fundo da sala pessoas estavam falando, mas ela continuava a contar sua história. 
Naquele domingo eles iam embora e o garoto franzino deixaria para trás aquilo que mais sonhou e o único amor verdadeiro que teve em toda a sua vida. Moravam em uma casa de barro, pequena e simples. 5 filhos. Uma longa estrada pela frente, no estômago somente o vento. 
A alguns metros residiam outra família. 13 filhos. E o que tinham em comum? Dois corações ligados por um único sentimento. 
A hora da partida chegara, e lá longe via-se uma linda menina correndo pelos capins verdinhos, cabelos claros ao vento e coração palpitando. As pernas não mais suportavam, mas a mente não a deixava parar. Na casa de barro eles arrumavam a mala. O garoto com uma camisa azul clara, velha e gasta pelo tempo, os outros de chinelinho nos pés, estavam prontos para seguir viagem. De repente aponta em meio às flores e a poeira da estrada, a garotinha de saia rodada, lágrimas escorriam pelas bochechas avermelhadas e voavam com o vento, respiração fadigada pela pressa escondendo a voz com a palavra adeus. Um encontro. Ele chora. Abraçam-se. Dois corações puros e ingênuos separados pela miséria e transbordando em lágrimas de sofrimento. Na camisa azul as lágrimas mais doces e singelas pingavam e ali ficariam por toda a eternidade; No suor do seu corpo ela carregava o cheiro e a tristeza de seu amado... 
Todos se levantam o sino badala, hora de ir embora. Meninas saem curiosas com os olhos mergulhados em lágrimas e os meninos sonhando com o final daquela linda e real história. Infelizmente a aula acabou e a professora deixa o final para outro dia. Na mente só ficou a lembrança das delicadas palavras proferidas pelos encantados lábios da fascinante contadora de história.
Por Universo das Palavras


segunda-feira, 9 de abril de 2012

Sua divindade, o amor!

Outono mês dos frutos. Época em que as crianças vivem correndo e se aventurando entre escorregadores, balanços e gangorras na pracinha ali do lado. No campinho de areia os meninos jogam futebol. As meninas brincando de casinha, com seus chás e xícaras sobre a mesinha no centro do parque. Entre chutes e chá nasce um amor, amor de criança, entre dois pequerruchos que não sabiam nem mesmo porque tinham vindo ao mundo.
As tardes de outono deixavam aquela pracinha ainda mais linda. Em um dia de vento forte, com folhas de ipê roxo caindo sobre a terra Ana e Luiz se encontraram, ela a espera de suas companheiras de chá e ele dos seus amigos boleiros. Ambos com, apenas, 9 aninhos. Esperaram por muito tempo e ninguém aparecia, enquanto isso conversavam sobre tudo. Ela sobre suas bonecas, amigas, escola, contando sobre o que gostava e não, ele falando sobre o vídeo game, filmes de terror, sua paixão por velocidade, contrariando a garotinha em quase tudo, entretanto se entenderam muito bem. Resolveram deitar na grama fofinha e esperar mais um pouco, para que seus colegas aparecessem. Olhando para o céu azul e repleto de nuvens branquinhas, contaram-nas, lhes deram formas, falaram sobre seus sonhos, seus pais, suas vontades e assim ficaram a tarde toda. Deitados na grama sem motivo algum, a companhia estava boa, o dia passou, eles não brincaram ninguém chegou, então resolveram ir para casa. Com o vento tocando os esvoaçantes cabelos de Ana, Luiz ficou observando-a caminhar pela rua vazia adornada de canteiro de flores que a deixavam ainda mais linda, então foi embora caminhando com sua bola nas mãos e encantado com a beleza, simpatia, delicadeza e inteligência da menina. Ana caminhava cantarolando aos pulos com sua bolsa de brinquedos lembrando-se da conversa que teve com seu novo amigo, fascinada com aquele cabelo loiro que caia sobre os olhos do garoto que apareceu do nada e fez da tarde vazia a melhor de todas.
No outro dia no mesmo horário lá estavam os dois, porém cada um com sua turminha, ela e suas amigas, ele e os outros garotos, um não tirava o olho do outro. Luiz marcava um gol e corria olhando para sua mais nova amiga que o encantava, ela tomando seu chá olhava para os garotos jogando futebol. Luiz então, ao final do jogo resolveu falar com ela, cumprimenta-la. Perguntou se a pequena garotinha gostaria de tomar sorvete com ele após o jogo e com o sorriso largo no rosto, Ana respondeu que sim, sentindo-se a garota mais feliz do universo. Mais tarde na sorveteria do fim da rua podia avistar os dois, rindo juntos e lambuzados da delícia gelada. Ela com sorvete de morango e ele de creme. Terminaram e voltaram pra casa juntos, cada um para a sua.
Foi então que Luiz completou 10 anos e chamou sua nova amiga para a festa, apresentando-a para toda a família. Para ele não importava se outros tinham ido à sua festa, o que importava que Ana estava lá. Ele não sabia dizer o que sentia, nem mesmo porque sentia. Só sabia que ficava muito feliz ao lado daquela garota que faziam seus olhos brilhar e coração acelerar; menina que o fazia sonhar acordado todas as noites deitado. 
Ana, assim como Luiz também fez aniversário e claro chamou seu amigo para a festa. A partir desse dia em diante o menino ia a casa dela todos os dias, nos fins de semana as duas famílias se reuniam para fazer algum programa, dentro ou fora de casa. Porém é possível perceber no rosto da mãe de Luiz certo desconforto na amizade das crianças, não se sabia o porquê, eram somente duas crianças construindo uma amizade, que para elas, seria “eterna”.
O tempo passou, Ana e Luiz agora tinham 17 anos cada um. Estavam se preparando para a formatura da oitava série. Seria um baile para toda a escola, o melhor de todos. As meninas de vestido longo e os meninos de beca e como já era de se esperar Ana e Luiz foram juntos. Contudo os dois não sabiam que essa festa marcariam suas vidas para sempre. Foi lá em que os dois se sentiram muito além das nuvens branquinhas daquela pracinha que brincavam naquele primeiro encontro. Foi lá que não se sentiam mais dois amigos, mas sim dois apaixonados. O primeiro beijo aconteceu no coreto, quando voltavam para a casa, com a lua forte no fundo iluminando a noite tranquila e fresquinha. Suas vontades eram ficar lá a noite toda, a vida toda. Juntinhos, abraçados e olhando um para o outro. No momento Ana sentiu seu coração palpitar, suas pernas tremerem quando tocavam o rosto suave e macio de seu, agora, enamorado. Quando os olhos fecharam e ele a abraçou, ela sentiu o mais puro e forte sentimento já sentido. Era como se estivesse protegida de tudo e todos, nada a afetaria naquele momento. Já eram duas da manhã voltaram para a casa, Luiz a deixou na porta com mais um beijo e foi para a casa com a mão esquerda no bolso, paletó nas costas segurado pela mão direita e cantarolando. Ana entrou fechou a porta cruzou os braços no peito e ali ficou com os olhos fechados encostada não acreditando no que estava acontecendo.
Um amor sincero, simples e forte tinha aflorado. Uma paixão de anos agora estava lá, sendo vivida. Ana acordou no outro dia com um sorriso largo no rosto, tomando café ao lado dos pais, mais feliz do que nunca, os dois percebendo a felicidade da filha perguntaram como foi o baile e ela conta, inclusive sobre o que aconteceu entre ela e Luiz. Os dois, fascinados com a alegria da garota observavam-na com toda atenção.
Luiz em sua casa, contava aos pais o acontecido, seu pai orgulhoso parabenizou o menino e o apoiou para que persistisse naquilo que queria, enquanto isso a sua mãe não gostou muito, resmungou que aquilo não poderia estar acontecendo e saiu da sala deixando pai e filho conversando sozinhos.
Naquele mesmo dia os dois saíram para ir àquela mesma sorveteria de quando pequenos, tomar o mesmo sorvete de morango e creme que tanto adoravam, só que agora como namorados e muito felizes. Toda tarde em que saíam, Luiz deixava a garota à porta de sua casa e se despedia com um suave beijo deixando gostinho de quero mais; enquanto na janela da casa de Luiz sua mãe observava balançando a cabeça e não admitindo tal cena.
Após mais de dois anos juntos e apaixonados, ambos com 19 anos, Carmem, mãe de Luiz aconselhava o filho a se separar da garota, porque não era sadio o amor dos dois, não podiam ficar juntos, sem mais explicações. Em uma noite chorando aos pés de uma santa que tinha no canto da sala da casa deles, Carmem pedia com toda fé para que os dois se separassem e o amor deles não fosse mais adiante. Luiz não entendia, perguntava a mãe o porquê daquilo, porque ela queria tanto que eles não ficassem juntos, mas ela não falava, dizia apenas que não era sadio. 
Luiz e Ana tinham agora 21 anos, quatro anos de namoro e todas as noites a mãe rezava e pedia a Deus que aquele amor acabasse e eles se separassem. Foi nesse mesmo ano que Carmem descobriu que estava doente, tinha câncer no cérebro, quando contou ao esposo e ao menino entraram todos em desespero, algum tempo depois Carmen teve uma crise foi internada, levaram a mulher para o hospital, todos na sala de espera sentados, aguardando alguém vir lhes dar boa notícia. Ana e Luiz juntos chorando no canto do cômodo, ela o consolando todo tempo. De repente vem uma enfermeira e chama os dois para o leito de sua mãe. Ao entrarem no quarto viram a mulher em um balão de oxigênio, muito fraca, pálida, quase não conseguindo falar. Cada um de um lado da cama segurando suas mãos choravam. A mulher esforçando-se ao máximo para pronunciar algumas palavras disse: 
_ Vocês não podem ficar juntos, são irmãos!
Essas foram às últimas palavras de Carmem, o coração parou. Essa vida não era mais dela. Deixou-os lá, chorando e agora com a revelação mais bombástica já imaginada. Luiz entrou em desespero começou a balançar a mãe, gritando desesperadamente e Ana tentando acalmá-lo puxando para trás. Chamaram às enfermeiras, os médicos, eles tentaram reaviva-la, mas não conseguiram, ela tinha ido embora.
Na sala de espera todos choravam sem saber o que fazer. Ana e Luiz se distanciaram, no enterro cada um no seu canto, sem consolo, apenas um oi, tchau e só. Foram embora e sem saber o que estava acontecendo o pai de Luiz lhe questiona querendo saber o que tinha acontecido entre o casal, mas ele, em luto, responde que nada, só estava cansado e triste e queria ficar sozinho. Naquela noite o garoto não dormiu, chorou por sua mãe e sua namorada, que agora descobrira que era irmã. Passaram uma semana sem se falar. Nem telefonemas, nem sorvetes. Os pais de Ana perguntaram-lhe o que estava acontecendo ela também não respondeu, só disse que estava triste, mas sem detalhes. Após algum tempo sem se falar, Luiz foi até a casa de Ana querendo conversar com ela e decidiram então reunir todos e perguntar se o que a mãe tinha pronunciado no leito de morte era verdade. A revelação feita na sala de jantar da casa de Ana abalou as estruturas de sua família. O pai da garota explicou que realmente havia tido um pequeno relacionamento com a mãe do garoto, mas antes de conhecer sua esposa. Sérgio e Clarice, pai da menina, casaram-se um mês depois de se conhecerem. A diferença entre a idade de Ana e Luiz era, exatamente de um mês. O garoto e o pai foram para casa, decepcionados e sem saber o que fazer. 
Ana foi embora da cidade, morar no exterior, estudar, trabalhar e tentar construir uma família, Luiz, um ano depois, também foi embora. Quatro anos sem se verem. Todo dia Luiz se lembrava da linda garotinha que tinha conhecido no parquinho e ela do galante e simpático boleiro do campinho. O garoto ainda era apaixonada por ela e tinha a impressão de ver Ana todo dia de manhã no café onde fazia sua primeira refeição do dia, mas achava ser alucinação por não conseguir esquecer a menina, contudo ficava pensando quem era aquela mulher que toda manhã estava na mesma mesa tomando um cappuccino e olhando pela janela e tão parecida com sua amada, foi então que um dia resolveu ir até a mesa conversar e teve a surpresa mais espetacular de sua vida, realmente era Ana. Seu amor impossível. O susto dos dois foi muito grande, tanto tempo longe e morando no mesmo lugar e novamente, mesmo bairro. Cumprimentaram-se, conversaram e todo dia se encontravam no mesmo lugar. No fim do ano foram para a casa, juntos, para visitar os pais e com eles passar o Natal, porém Luiz, querendo confirmar aquilo que a mãe disse para ele há tantos anos, convidou Ana para fazer um exame de DNA e então ter certeza que realmente eram irmãos, só ele sabia o que sentia por ela e aquele sentimento era forte demais. O exame foi feito e o resultado jogado em cima da mesa e outra surpresa ainda maior, eles não eram irmãos. Carmem foi embora, mas sem saber da verdade imaginando que o filho, era sim, de outro pai. A felicidade foi tão grande que na mesma hora os dois apaixonados abraçaram e se beijaram chorando. Luiz ergueu sua amada dizendo que a amava e queria passar o resto da vida ao seu lado, pedindo-a em casamento e ela aceitando sem nem pestanejar. A família festejou muito pelo resultado e a confirmação do que o pai de Ana já tinha quase certeza.
Os dois se casaram, voltaram para o exterior e lá continuaram, tiveram filhos, trabalharam, foram felizes ano, cada mês, cada dia, cada hora, minuto, segundo, incessantemente. Luiz e Ana faleceram com 85 anos. Deitados sobre a cama abraçados e com um suave sorriso no rosto, dando a certeza do amor eterno que, muitos não acreditam, e que realmente existiu entre os dois.
Ana e Luiz, amores amantes e apaixonados. Separados por uma dúvida ou uma mentira e juntos novamente pelo destino ou por um amor divino, feito por Deus.
Através dessa história gostaria de dizer aos casais apaixonados que acreditassem no amor, que não fossem tão insanos na hora de culpar um ao outro ou duvidar de situações que nem existiram. Pensem bem antes de julgar algo, não queiram ver pelos olhos dos outros e sim pelos próprios. Ninguém sabe melhor a verdade que o nosso coração. Acreditem no amor verdadeiro e eterno, ele existe, não só na imaginação, nem mesmo nas histórias e filmes românticos, mas sim na vida e no coração de cada um, só temos que acreditar. Aos solteiros, acreditem cada um tem alguém, ninguém é só. Assim como Deus fez Adão e Eva e fez um casal de cada animal você também tem o seu, basta esperar o tempo certo para as coisas acontecerem.

Por Universo das Palavras


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Um coração solitário

Caminhando pela areia e conversando com as estrelas, percebo que bem ao longe há um homem sentado, olhando para o mar e na sua face lágrimas caem. Fico olhando por algum tempo e aquele homem continua do mesmo jeito sem movimentar um músculo. Resolvo ir até ele e perguntar o que tanto o afligia.
Aprendi que quando alguém está triste nada melhor que um ombro amigo para ajudar.
Andei até ele e me sentei ao seu lado. Cumprimentei-o e me apresentei. Recebi um oi de retorno e seu nome. Perguntei se poderia ficar ao seu lado ou se poderia ajudar.
Ficamos sentados um ao lado do outro sem ao menos uma palavra ser pronunciada. Dois estranhos sentados à areia, apenas o som das ondas do mar. Por um momento pensei que fossemos ficar daquele jeito a madrugada toda, mas quando eu menos esperava palavras surgiram de sua boca.
Ele: _Você vem sempre aqui? - Suas lágrimas não caiam mais.
Eu: _Não, passei por aqui por um acaso, estava calor para ficar em casa e precisava refletir um pouco.
Ele: _Você já sofreu por algo que sabe que é para não causar mais sofrimentos?
Não entendi a pergunta, mas respondi: _Acredito que não.
Ele: _ Você tem família?
Eu: _Sim, tenho e você?
Ele: _Não!
Eu: _O que aconteceu com eles?
Ele: _ Eles quem? Minha família?
Eu:_ Sim!
Ele: _Os perdi!
Eu: _Perdeu?
Ele: _Sim!
Eu: _Vamos encontrá-los então! Eu te ajudo! - Disse toda animada, querendo ajudá-lo.
Não esperava ouvir o que ouvi.
Ele: _ Não, nunca iremos encontrá-los. Não estão mais aqui nesse mundo.
Arrepiei-me ao ouvir aquilo. Você já se imaginou sem sua família? Então perguntei:
Eu: _Mas o que aconteceu com eles?
Ele: _Acidente!
Eu: _Acidente? Acidente do que?
Ele: _Sim, acidente! Íamos para uma viagem de férias. No dia da viagem precisei ficar até mais tarde no trabalho e eles foram sem mim. Eu iria depois que saísse da empresa.
Eu: _E o que aconteceu?
Ele: _Durante a trajetória eles colidiram de frente com um caminhão que transportava combustível, os dois explodiram e minha família faleceu, assim como o motorista do caminhão.
Fiquei horrorizada com o que havia acabado de ouvir. Minhas palavras sumiram agora as lágrimas que caíam eram as minhas. Ele continuou:
_Minha mulher era incrível. Ela esperava um menino, estava de 02 meses. Minhas outras filhas eram gêmeas, tinham 08 anos. Estavam na 3ª série. Muito carinhosas comigo e com minha esposa, risonhas, muito inteligentes e dedicadas. Respeitavam-nos demais. Tinham vários amiguinhos que sempre iam lá em casa. Todo final de semana era a Cine Sexta, como elas diziam. Assistíamos vários filmes juntos e comíamos muita pipoca. Foram fins de semana maravilhosos. - Ele voltou a chorar, mas com um sorriso suave em seu rosto - Minha vida era perfeita. Quando fiquei sabendo que ela estava grávida de um menino, quase explodi de alegria. Ela era Linda, uma esposa e uma mãe espetacular. O dia do nosso casamento foi o melhor da minha vida. Nossa vida melhorou muito mais depois que as gêmeas nasceram. As mais lindas garotinhas que já havíamos visto até aquele dia. Demos muito amor àquelas crianças. Cada segundo ao lado das mulheres da minha vida foram inesquecíveis, cada sorriso, cada palavra, cada olhar. Não existe amor maior que o que eu sinto por elas.
Eu: _Quando isso aconteceu?
Ele: _Duas semanas atrás!
Assustei-me com a resposta. Tão pouco tempo. Ele era muito forte em conseguir contar aquilo. Eu não conseguiria.
Ele: _Minha vida perdeu o sentido após essa tragédia. Se não fosse Deus não sei o que faria. Perdi meus pais com 10 anos. Morreram soterrados após uma semana de chuvas fortes. Nunca conheci meus avós, mamãe dizia que eles a abandonaram quando pequena. Papai não falava dos pais dele eu não sabia nem o nome dos meus avós paternos. Não tive tios nem primos, pois meus pais eram filhos únicos, assim como eu. Dos 10 anos em diante aprendi a viver sozinho. Até encontrar Dominique, a minha esposa, e construir com ela minha família. -Seu choro já havia cessado - E Deus os tirou de mim também. Mas, sabe, eu tento aceitar esse fato. Tenho alguma missão para cumprir nesse mundo ainda. Algo que devo fazer sozinho. Primeiro Deus tirou meus pais, agora minha esposa e meus três filhos. Deixando-me aqui sozinho. Ele deve ter um propósito muito grande para mim e que com toda certeza devo cumprir sozinho.
Estava fascinada com a forma que esse homem via o mundo e as tragédias horríveis que tinham acontecidos com ele, sua Fé nunca acabara era mais forte que qualquer dor do mundo e ele aceitava os fatos sem se revoltar com Deus. Acreditando em um amanhã melhor.
Conversamos por um longo tempo olhando para o horizonte. Observado o mar. Vimos à lua indo embora descansar e o sol acordando. Demos bom dia a ele. Levantamos e fomos embora. Tornamos-nos amigos e continuamos com essa amizade até ontem. Ele faleceu. Nossa amizade durou cinco anos. Uma semana antes de sua morte entendi o porquê da visão que ele tinha dos fatos que aconteceram durante seus trinta e cinco anos. Meu amigo havia descoberto que tinha câncer um mês antes da morte da sua família. E sabia que eles sofreriam muito se os deixasse sozinhos aqui. Então quando Deus os levou, ele sabia que era para poupar sofrimentos futuros e que quando fosse também os encontrariam lá ao lado do Todo Poderoso.
Fiquei sabendo dessa doença uma semana antes da sua morte. Na noite que se foi eu estava ao seu lado e ouvi: _Nunca desista da sua vida, por mais difícil que seja é a coisa mais preciosa que existe então, viva ela o tempo todo, não desperdice um minuto sequer e não se esqueça que tudo tem seu tempo e que Deus sabe o tempo correto de cada fato que acontece. Sua amizade foi a mais intensa e maravilhosa que já tive em todos esses anos. Você foi um anjo que Deus mandou para ficar ao meu lado, enquanto ele cuidava da minha família para eu cumprir minha missão e ir embora. Não chore quando eu for, pois estarei indo ao encontro de pessoas que eu amo e jamais me esquecerei da sua amizade, vou ficar ao seu lado em todos os momentos. Após a sua última palavra, seus olhos fecharam e o que eu não queria que acontecesse aconteceu. Ele foi ao encontro da sua amada família.
Antes de ir pediu que eu cuidasse da sua clínica, com todo o amor que ele cuidou enquanto estava vivo.
Hoje está completando dois anos da sua morte, ainda sinto falta, mas sei que ele está o tempo todo comigo, dentro do meu coração.
Lembra da missão que ele sempre dizia que tinha e que com certeza era sozinho? Então, essa missão era dar sentido a minha vida. Aquele dia que o encontrei na praia eu é quem procurava ajuda e tentei ajudá-lo. Se não tivesse o encontrado aquele dia, não seria tão feliz como sou hoje. Cuidando da clínica de reabilitação para pessoas que tem ou tiveram câncer. O sonho que ele tinha e que deu sentido a minha tão dolorosa a monótona vida.
Termino essa história fictícia, lembrando-os, que Deus tem o tempo certo para tudo e para todos. Ele sabe o que faz o que pode acontecer na vida de cada um. Talvez um fato ruim seja a porta de entrada para uma reviravolta e aquelas pedras que estavam na frente do seu caminho, podem se transformar em flores lindas e perfumadas. Então nunca desista da sua vida nem dos teus sonhos. Nada é impossível, basta ter Fé naquilo que se quer e tudo acontece.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Incógnita

Em uma estação ferroviária um homem com um livro em mãos, aguarda para o embarque no próximo trem. De repente um estrondo. O homem para e olha. Em sua direção um projétil, correr não adianta. Tudo para, o mundo para. O trem que vinha estagnou. A bala está chegando, girando com toda força. A bala cai, o livro também. No peito uma batida, a última do coração, de olhos abertos deitado no chão gelado, dá seu último suspiro. Tudo volta ao normal, o trem passa. Ninguém por perto, só uma sobra detrás da coluna, que também se vai. Só restou o livro aberto na página 27, com o título: Um judeu na Alemanha.

Por Universo das Palavras

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Dignidade pisoteada

A que ponto chega o ser humano. Hoje enquanto trabalhava um senhor, de aparência simples, cabelo curto grisalho, aparentando ter de sessenta anos para mais, agasalhado com uma blusa de lã azul e utilizando uma muleta chegou até o escritório pedindo ajuda para que pudesse comprar remédio contra um câncer no estômago, todos que comigo trabalham e no momento tinham condições de ajudar, ajudaram. Fiquei feliz em saber que pessoas boas ainda existem e estão ao meu redor, mas ao mesmo tempo muito triste em ver a que ponto pode chegar uma pessoa, ter que pedir dinheiro para comprar remédio. 

Existem charlatões pedindo nas ruas, mas para comprarem produtos indevidos não porque precisam, no entanto quando vemos que existem pessoas que realmente precisam de “esmolas” para comprar até mesmo remédios, é triste, muito triste. 
Fico imaginando se algum dia esse senhor, que aqui esteve hoje, vai estar na rua caminhando como um cidadão qualquer, onde tenha melhorado e possa gozar da vida sem precisar passar pela “humilhação” de pedir dinheiro, novamente. Penso também o que se passa pela cabeça dele, que um dia pode trabalhar ganhar o próprio sustento e que hoje necessita de ajuda. 
Senti a vergonha que o senhor sentiu no momento em que olhou para mim quando pedia, encarecidamente e com muita educação, aquela mísera ajuda. Ao sair, pediu desculpas por ter nos “atrapalhado” aquele momento, o que com toda certeza do mundo não fez, atrapalhar. Sei que a pena, a dó é um dos piores sentimentos de sentir para com o próximo, mas mesmo assim, naquele momento foi o que me preencheu, a pena. Espero que um dia, esse senhor possa melhorar e voltar a uma vida sadia, espero também que um dia os filhos dele revejam seus conceitos e ajude-o para que não precise, nunca mais, passar pelo que passou hoje. Quantos nãos ele não recebeu? Quantos, desculpa, mas não posso ajudar! Isso é humilhante para alguém que passou uma vida trabalhando e hoje se ver perdido nessa imensidão de injustiças.

Por Por Universo das Palavras

sábado, 3 de dezembro de 2011

15 - "Quinze"

Os anos passam, os momentos acabam e tudo parece ser incompreensível. Essa é a idade dos sonhos perdidos. 
Pedro, um garoto de 15 anos precisou sofrer um terrível acidente para conseguir entender o que é a vida. 
_ Não Pedro, não vá. Não faça isso, você tem apenas 15 anos. Não teime Pedro, não vá! 
_ Ah! Mãe me deixa você não manda em mim. Meu pai me deu de presente. Vamos galera! 
_ Uhuuu! Vruummm... 
_ Pedro cuidado. A luz. Cuidado. Socorro. Screeech iééé! Craaash! 
_ Iôn iôn iôn... Afastem-se, afastem-se, deixem-nos passar! 
_ Piiip Piiip Piiip... Como ele está doutor? Está bem, não corre mais risco de vida, mas terá graves sequelas! 
_ Sequelas doutor, meu Pedrinho, o que acontecerá com ele? 
_ Sim dona Sônia, seu filho não poderá mais andar. Perderá o movimento das duas pernas. 
_ Não, não pode ser verdade! 
Pedro era filho único, um garoto sem valores e escrúpulos, que sempre teve tudo na vida e não soube aproveitar. Quando pequeno um amor de criança, aos 5 anos os pais se separaram. A partir de então Pedro não era mais o mesmo. Na escola não tinha incentivo, os professores o chamavam de mimado e diziam que o menino não tinha mais jeito. Com 09 anos começou a sair com garotos “barra pesada”, roubavam para brincar, Pedro influenciado por seus amigos começou a fazer o mesmo. O pai, senhor Valter, não se importava com o garoto, a mãe dava tudo que tinha para satisfazer a falta que o pai fazia na vida do menino. 
Aos 12 anos, Pedro foi flagrado junto aos outros amigos, tentando roubar uma loja. A mãe do garoto, mesmo muito decepcionada foi até a delegacia buscá-lo. Em casa perguntou-lhe o porquê daquilo. 
_ Por que você fez isso Pedro? Eu já não te dou tudo que você quer, por que roubar? 
_ Eu sei mãe, desculpa, mas eu achei que era legal, pensei que não fosse acontecer nada. Desculpa! 
_ Tudo bem Pedro, mas, por favor, não faça mais isso. Eu te amo tanto e não quero um filho marginal. Venha aqui. 
Deitado no colo da mãe o garoto dormiu como um anjo, fazendo com que ela aceitasse o acontecido e acreditasse que aquilo jamais aconteceria novamente, porém não foi como ela imaginava. 
Toda noite Pedro chegava de madrugada, irritado, sem dar explicação de nada; enquanto a mãe ficava sentada no sofá esperando seu menininho chegar. Dona Sônia não sabia mais o que fazer para conseguir fazer Pedro parar com as coisas erradas que estava fazendo. A mulher havia buscado o garoto na delegacia mais de três vezes por bebidas e tentativas de roubo. 
Quando Pedro fez 15 anos o pai, irresponsável deu-lhe um carro velho para “brincar” como disse o homem quando lhe deu o presente. No mesmo dia o garoto pegou o carro, mesmo com a mãe insistindo para não ir e saiu com os amigos. Naquela noite Sônia sabia que algo de ruim iria acontecer, seu filho era irresponsável demais para dirigir. Ficou rezando até adormecer, pedindo proteção ao garoto, contudo, na madrugada do mesmo dia, o telefone de Sônia toca. 
_ Triiiimm, triiimm... 
_ Alô! 
_ Dona Sônia? 
_ Sim sou eu, pois não! 
_ Dona Sônia a senhora pode comparecer ao hospital central, por favor? 
_ O que aconteceu, é o Pedro, aconteceu algo com ele? O que aconteceu moça? Ele está bem? É o Pedro, responde, por favor! 
_ Sim, mas fique calma, seu filho sofreu um acidente de carro, mas não corre risco de vida. Venha até o hospital, obrigada! 
Sônia desligou o telefone, trocou de roupa o mais rápido possível. Desesperada foi até o hospital onde estava seu filho, deitado em uma cama cheio de aparelhos e com o corpo completamente machucado. 
Pedro havia batido defronte a uma carreta carregada com toras, além da batida forte as toras de cima da carreta caíram sobre o carro amassando-o, deixando todos os amigos de Pedro em óbito e ele em coma. 
A mãe chorou a noite toda ao lado da cama onde o filho estava, se perguntando o que tinha feito de errado para que o menino, tão jovem, se tornasse aquilo que se tornara. 
Passado se três dias em coma Pedro abriu os olhos, perguntando o que tinha acontecido e onde estava. A mãe, como sempre ao seu lado respondeu contando o que acontecera. Pedro começou a chorar e se lamentar pelo fato e pelo que fizera. Pediu e implorou desculpas a sua mãe, a qual chorando abraçada a ele o perdoou como sempre fazia. 
_ Mãe, não estou sentindo minhas pernas, por quê? O que está acontecendo, minhas pernas. 
Pedro começa a chorar questionando o que estava acontecendo, o médico ao lado do garoto pede para ele ficar calmo e lhe explica: 
_ Pedro devido à forte pancada durante o acidente, você não poderá mais andar, em consequência de fraturas nas vértebras rompendo a medula. Para você voltar a mexer as pernas terá que acontecer um milagre. Sinto muito Pedro, mas não há o que fazer. 
O garoto muito nervoso, já com a morte dos seus amigos, entra em prantos, dizendo que preferia ter morrido junto com seus colegas do que ter ficado vivo sem poder andar. Sua mãe senta a beira da cama com a cabeça do garoto em seu colo e o consola, fazendo-o adormecer. 
Uma semana depois, o menino foi liberado pelos médicos, voltando para casa em uma cadeira de rodas. 
Pedro se tornou um garoto triste, desanimado que não fazia nada, ia para a escola apenas porque sua mãe mandava e como ele sabia que já tinha causado muito problemas e a feito sofrer demais, fazia o que ela pedia. Seu dia se resumia em comer, dormir, TV e escola. 
Sônia começara a trabalhar em um centro de reabilitação para pessoas que haviam adquirido deficiências depois do nascimento em consequências de acidentes ou outro tipo de fator, menos o genético. O trabalho estava ajudando-a estimular o seu filho, a entendê-lo e a incentivá-lo. O que estava sendo muito difícil. 
Certo dia de tanto Sônia insistir Pedro acompanhou-a até a clínica passando por diversos setores. 
_ Essa é a sala das pessoas que têm paralisia cerebral, Pedro. Aqui eles fazem exercícios, ouvem música, estudam, pintam, fazem todo e qualquer tipo de atividade recreativa que estimulam a melhora. 
Sônia mostrou toda a clínica para seu filho, esperando que o menino se sentisse motivado pelo que estava vendo, porém nada fazia com que Pedro sentisse vontade de melhorar. 
_ Filho essa sala são de crianças que sofreram acidentes assim como você. Alguns são tetraplégicos, paraplégicos, alguns perderam outros sentidos... Aqui eles praticam esportes, conversam, trocam ideias. 
Pedro olha aquelas crianças, assim como ele, em cadeiras de rodas, outras deitadas em uma cama sem movimentar nenhum dedo, apenas os olhos, aquilo o comove. 
Ao irem embora o garoto comenta com sua mãe que gostaria de ajudar aquelas crianças, mas que não podia porque agora era inválido. Chorando falou que não tinha mais o que fazer, que para ele não existia mais vida. 
_ Eu não sirvo para mais nada mãe, não posso andar, não posso fazer mais nada. Tudo que tive um dia joguei no lixo. Sou um inconsequente que nunca se preocupou com nada, além de um assassino, sou também um inválido. Sinto muito mãe, muito mesmo, me desculpe por tudo que fiz, eu não queria ser assim! 
Sônia ouviu tudo com atenção e não disse nada, deixou o menino refletir a noite toda. 
Na manhã seguinte, Pedro acordou tomou banho colocou sua guitarra sobre a perna e foi para a cozinha tomar café. Sônia achou estranho o menino, depois de tanto tempo, acordar cedo e aparecer na cozinha para tomar café tomado banho e com a guitarra em mãos. Há tempos ela não o via tão animado. 
_ Mãe eu pensei muito e sei o que posso fazer para ajudar aquelas crianças. Vou dar aulas de guitarra, ensiná-las a tocar. Quero trabalhar como voluntário! 
Sônia com os olhos cheios de lágrimas levou o garoto até a clínica e explicou ao diretor o que seu filho queria fazer. 
_ Claro Pedro, você pode trabalhar conosco, será uma honra tê-lo dentre nossos funcionários. 
Há 7 anos Pedro trabalhou na clínica como professor de música, formando 14 turmas. 
Com 25 anos se casou com uma das funcionárias, se tornando o dono da, agora chamada, Clínica Esperança de Sônia, em homenagem a mãe que falecera há um ano, em consequência, de uma parada respiratória. 
Pedro agora se tornou o pai Pedro, esposo Pedro e empresário Pedro. Aquele garoto inconsequente de antes morreu junto com seus amigos, no dia do acidente. 
Na inauguração da nova clínica, Pedro homenageou a mãe agradecendo tudo que ela fez por ele. 
_ Hoje, inauguro essa clínica com o nome Esperança de Sônia em homenagem a minha mãe, aquela que me fez ser o que sou hoje, aquela que mesmo sofrendo com meus erros nunca perdeu a esperança de me fazer tornar alguém melhor, mesmo depois de tudo que aconteceu e que eu a fiz passar ela conseguiu alcançar seu objetivo. Transformar-me em alguém bom, com escrúpulos, responsável e consciente
Mesmo com a voz embargada, o garoto continua:
_Então agradeço muito a tudo que ela fez para mim. Não importa onde você esteja mãe, eu a amo muito e sempre serei grato por tudo que você fez, mesmo estando sozinha, conseguiu aguentar tudo e ser “A Minha Mãe”. 
Todos com os olhos cheios de lágrimas aplaudem em pé, o garoto paraplégico que começou a viver depois de “perder a vida”.
Por Mariane N. Souza

Apresentado na aula de Literatura Infanto Juvenil

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Rugas do amor eterno

Em uma casa de madeira no interior, morava um casal de idosos casados a mais de 70 anos. Os filhos, um menino e duas meninas, já casados e pais, os visitavam no máximo três vezes por ano. Os dois viviam uma vida simples, sem muita mordomia nem regalias, porém juntos, trabalhando noite e dia conseguiram fazer dos seus filhos excelente profissionais. O mais velho tornou-se engenheiro, a menina advogada e a mais nova recém formada em odontologia, os três com uma vida sossegada e aconchegante.
Durante a infância das crianças a mãe, trabalhava como professora; enquanto seu esposo era carpinteiro. Algo que admirável entre os dois era o convívio, o amor que existia dentro da casa. O pai das crianças tinha um quartinho do lado de fora onde construía e reformava móveis durante todo o dia. Várias vezes ouvia-se o homem rindo com seus filhos enquanto criava brinquedos para suas crianças. A mãe, professora, chegava em casa com o almoço na mesa e as crianças prontas para irem à escola. Seu esposo, dedicado, deixava tudo pronto esperando a chegada de sua amada. Durante toda a tarde os dois trabalhavam juntos. Após a casa arrumada, a mulher descia pelas escadas que rangiam avisando ao carpinteiro a vinda de sua professorinha. A noite era da família, onde todos conversavam, brincavam e riam. Uma família estruturada que tudo fez para que a união e amor reinassem dentro da casa. Nos domingos o café era colonial, contudo a mulher recebia na cama seu café, com um bilhete de bom dia e uma rosa branca, jamais acabará o romantismo entre os dois. O tempo foi passando e as crianças crescendo o mais velho agora tinha 25 anos, saiu de casa para procurar mais oportunidades, passado-se 2 anos era pai de família casou-se e teve um filho. No aniversário de 15 anos da filha mais nova uma tragédia aconteceu e o lugar onde o homem trabalhava pegara fogo. Anos de construção, anos de investimento, de trabalho indo embora com as cinzas, com a fumaça... com o vento. Mas não desistiram, a mulher persistente como sempre, trabalhou com mais garra e conseguiu ajudar seu esposo reerguer e voltar a trabalhar. Agora era a vez das meninas, as duas saíram de casa, foram morar na capital, estudar, trabalhar e construir suas famílias, assim dito e assim feito. Mas lá no interior ainda existia aquele casal que esperava os filhos três vezes ao ano de braços abertos e coração na mão.
70 anos de casados, três filhos, dois aposentados, uma casa de madeira no interior. Casa arrumada, com bolo de fubá em cima da mesa (favorito das crianças), quitutes, suco e café com leite. Na varanda o casal de mãos dadas um em cada cadeira de balanço e a cabeça encostada, a espera dos meninos para todos juntos comemorarem o aniversário de casamento, ao lado uma mesinha com um rádio que tocava uma música suave e calma. Dia era claro, com brisa leve. De repente carros chegam, crianças correndo, portas de carro batendo. A família chegou. Ao subirem os degraus da varanda os sorrisos se fecham, as bocas se calam, as lágrimas caem e o silêncio predomina. Enquanto na face dos velhos amantes o sorriso leve permaneceu, com as cadeiras balançando e as mãos enrugadas e frouxas com dedos entrelaçados, demonstrando o amor que ali viveu.

Por Mariane N. Souza


terça-feira, 11 de outubro de 2011

Você já fez uma boa ação hoje?

Hoje, enquanto ia para o trabalho observava como se comportam as pessoas. De início percebi que as elas não são mais prestativas como eram antes, mas também pude observar que existem, ainda, algumas pessoas que se importam com o próximo. 
Certo dia passava pela rua quando percebi um senhor deitado na calçada, onde, com certeza, lá havia passado adormecido. Aquela noite fora gelada e ele possuía, apenas com um cobertor pequeno. As pessoas passavam ao seu lado olhavam de canto com nojo, medo, críticas e continuavam andando como se ele fosse um animal qualquer, com menos valor que um cachorro. Algumas cochichavam dizendo “por que não procura um emprego, não vai trabalhar cadê a família?”. Essas frases eram comuns ouvir, porém não passava pela cabeça de ninguém o porquê de ele estar naquele lugar, daquele jeito, passando fome, frio, sem lugar para morar, dormir. Enquanto nós estamos quentinhos no aconchego do nosso lar, com família, comida e todas as mordomias que nos são concedidas, essas pessoas estão no frio, na chuva, com fome às vezes até com sede e mesmo assim ninguém ajuda, todos criticam, mas não há uma alma caridosa para ajudar; talvez se fosse um cachorro teria mais possibilidade de ajuda que um pobre ser humano. 
A solidariedade, o ser prestativo já se extinguiu junto com toda a “bondade pura” que o homem já teve. Não é difícil dizer bom dia para alguém que passe na rua, dizer um olá, responder com um sorriso, ajudar alguém, ser simpático, educado... Existem tantos gestos, simples, mas tão lindos e que te trazem uma satisfação tão grande. Às vezes um “oi” ou “bom dia” é o que basta para tornar o dia de alguém melhor. Será que não está na hora de começarmos a prestar atenção no próximo, deixar nossa arrogância de lado e começar a agir? Não é difícil ajudar, além de tudo, querendo ou não, cada dia que passa é um a menos na vida e um segundo perdido é um segundo não vivido, então vamos pensar mais antes de fazer algo, criticar e quem sabe ajudar até mesmo com um sorriso.

Por Mariane N. Souza

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

... Até o fim...

Quando pequeno era feliz, jogava futebol, sonhava, subia em árvores, pulava na cama, normal como toda e qualquer criança, porém um dia enquanto corria para pegar a bola que escapara e rolara para a rua, um carro em alta velocidade fez com que esses sonhos se desmoronassem. A família correu para o hospital, desesperados. O médico leva para a sala de cirurgia, e todos na sala de espera aflitos, andando de um lado para o outro, de repente vem o médico, de cabeça baixa e diz: _ Seu filho está bem, a cirurgia foi um sucesso! Todos choravam e agradeciam-no por ter salvado a vida do garoto, lágrimas caíram, sorrisos apareceram, preces foram feitas e agradecidas. Duas semanas depois ele teve alta, contudo não foi só, levara uma companheira para o resto da vida, a cadeira de rodas. Sim, o garoto ficou paraplégico, jamais voltaria a andar, uma semana depois teve as duas pernas amputadas, o carro as esmagara era a única solução, ou as pernas ou o menino. 
O tempo passou, agora ele tinha 18 anos, tocava em uma banda de rock, pintava, desenhava, era um completo artista. Sem mencionar a linda voz que suavizava as melodias. Era um exemplo. Estava no curso superior, cursava Artes. Um garoto lindo e nada o fazia parar nem mesmo a cadeira de rodas. Com 21 anos terminou a faculdade e junto com ela descobriu uma doença que atrofiava os nervos das mãos. O céu desabara sobre sua cabeça mais uma vez. Dois anos de tratamento, mas as mãos jamais voltariam a ser como antes, contudo lá estava ele, tocando, cantando, sorrindo e vivendo. Com 28 anos, após 1 ano de namoro casou-se. Ele, agora, era palestrante, além de tocar, cantar, desenhar e ser professor de música. No dia do seu aniversário de 35 anos descobriu um câncer no cérebro, um ano depois faleceu. Deixando no ventre da esposa um bebê de 6 meses. 
Assim fora sua vida, linda, cheia de obstáculos, porém aproveitado cada segundo. Nem mesmo um iceberg o seguraria. Obstáculos foram aventuras usufruídas, aceitas e ultrapassadas. Cada passo um desafio, cada desafio ultrapassado até o fim.

Mariane N. Souza


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Como esquecer os amores impossíveis?

Não sei por qual motivo, mas hoje eu me sinto muito cansado, muito fraco, muito feio e muito triste. Sempre possui uma grande esperança de encontrar e viver um grande amor, mas com o tempo essa minha esperança foi sendo desmanchada aos poucos, e hoje resta tão pouco que é preciso um grande esforço para encontrá-la dentro de mim.
Me lembro de quando mais jovem ter tanta força e otimismo, e acreditar fielmente que amar e ser amado era uma coisa possível. Mas os anos acabaram arrancando de mim essa força, apagando a chama que eu tinha em mim, e agora, apesar de ter 30 anos, me sinto como se tivesse 90. É como se inevitavelmente eu fosse me tornando aos poucos uma estátua de pedra, sem capacidade de acreditar na felicidade e no amor.
Já não sei responder a pergunta proposta. Já não sei se tenho tanta força, já não sei mais se quero continuar procurando. Hoje me sinto tão cansado, tão feio, tão insignificante, tão inútil, que nenhuma palavra de consolo poderá enxugar minhas lágrimas no escuro.
Alguns podem me dizer que o amor sempre aparece, que tudo acaba dando certo. Pode até ser. Mas hoje, em minha caverna escura, com meus 90 anos e minha coleção de frustrações e abandonos, acho que não tenho forças para acreditar nisso. Pode ser que o amor ainda aconteça, mas hoje não acredito. Pode ser que eu ainda seja feliz, mas hoje não acredito. Pode ser que haja luz um dia, mas hoje eu não acredito.
Hoje me sinto tão fraco que sinto que posso até chorar assistindo alguma novela mexicana. Me afundo nesse lamaçal, enquanto a pessoa amada sorri, e indiferente, nem lembra que existo.
Sei que nesse instante ninguém pode me consolar. Sei que nesse instante estou sozinho com minha dor. Sei que nesse instante nem mesmo “eu” tenho a certeza se existo.
Talvez daqui a algum tempo eu consiga me reerguer, limpar a poeira a tanto tempo acumulada, e recomeçar, e re-acreditar na felicidade. Mas hoje, nesta noite, eu me sinto muito fraco, muito triste, muito sozinho, para ficar sonhando com dias felizes e com um amor puro e sem máculas.
E para você que leu esse texto até aqui, desejo que encontre seu amor, e que nunca sinta esse mesmo abandono e invisibilidade que sinto hoje. E que você tenha dias de sol e esperança, esperança para recomeçar. E apesar de todos os desenganos e sofrimentos, que você consiga encontrar alguém que te ame mais do que tudo, e que esteja ao seu lado te apoiando, te dando carinho, te dando paz, sentindo a beleza e a realização, até os 90 anos.
André Zagreu 




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