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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Vestido de Seda Vermelho

As portas se abrem e lá do fundo ela vem caminhando. No corpo traz apenas um vestido de seda vermelho, colado, aberto perna a mostra. Os quadris largos, cintura fina, cabelos longos e boca vermelha aguçam a imaginação de homens e mulheres que de longe a observam. Por onde passa deixa seu perfume doce e marcante. Poder, beleza e sensualidade regidos na mais perfeita maestria. 
Ela caminha pelo corredor que parece não ter fim. Postura ereta, passos compassados. Nas outras salas ouvia-se o som do salto alto. 
Mulheres olhavam com inveja. Era a beleza mais deslumbrante que já havia sido apresentada. Elegância e sensualidade. Os homens a comiam com os olhos. Rasgavam seu vestido com a boca. Desejavam cada fio de cabelo, cada centímetro de seus lábios. A voz rouca e calma adelgaçava a curiosidade de experimentar o seu sabor.
Ela entra na sala presidencial e deixa o prédio em poucos minutos. Ouve-se apenas seu nome, Lucy. Quem seria Lucy, qual seria o segredo de tanta beleza, charme, elegância e poder?
Lucy, solteira e milionária fora fazer investimentos naquela “fatal” empresa. Assim como todos, Paulo, o presidente e proprietário, ficara deslumbrado com tal beleza e vidrado no decote mais perfeito que já vira. Fora convidado, pessoalmente, a um jantar de negócios. Paulo, como um homem bem sucedido, aceitou sem nem mesmo pensar. Seu interesse era estritamente profissional.
Ligou para casa, avisou a esposa que não iria jantar, pois estaria em uma reunião de negócios. Saiu da empresa e foi direto encontrá-la em um dos restaurantes mais bem frequentados na cidade. Falaram de negócios a noite toda. Lucy estava disposta a comprar a empresa de Paulo. Propôs pagamento à vista, em dinheiro. Sem entender qual o interesse da mulher, o empresário disse pensar sobre o assunto. Conversa vai, conversa vem. Taças de vinho, boa comida, boa música, troca de olhares e a noite termina em um motel. Lucy tem mais uma reunião de negócios, bem sucedida.
A noite se repete uma, duas, três, quatro, cinco vezes. O casamento de Paulo já não era mais o mesmo, ele só pensava na sensual e poderosa mulher, que poderia ter em sua cama todas às noites, satisfazendo todos os seus desejos. Lucy enfeitiçava Paulo com beleza, dinheiro e prazer. Ao passar uma semana, ele se separa e sai de casa. Lucy o observa de longe, era como se seus olhos de águia o conhecessem há anos. Mal sabia Paulo, o que lhe esperava. 
Os dois saem para comemorar a nova vida que o empresário teria a partir de então. Cheia de riquezas, luxos, sem compromissos e responsabilidades. Tudo que ele, como um homem cheio de vaidades, gostaria de ter. Os dois viviam bem durante meses, Lucy era a mulher que todo homem sonhava. Até que ela o convence a passar a empresa em seu nome, justificando com a explicação de que sua ex-mulher poderia ficar com metade do patrimônio do amante apaixonado, durante a separação. Paulo, sem questionar fez tudo que ela pediu. Ela o enfeitiçara.
Ao terminar as assinaturas, Lucy com sorriso largo no rosto, olhos vidrados em sua presa, promete a mais perfeita e prazerosa noite de amor a Paulo, que fica excitado apenas em olhar a boca que pronunciara tais palavras.
Os dois vão direto ao motel, onde ficaram a primeira noite. Lucy tira a roupa e o provoca com seu corpo escultural. O homem que transpira ao olhá-la, não acreditando ter em sua cama mulher tão extasiante. 
A noite prometia loucuras. Lucy continuava com olhar fixo e hipnótico. Deixara a banheira enchendo enquanto fazia seu homem “queimar” na cama redonda de lençol branco. Paulo salivava a cada toque, gesto. Sua vontade era pular em cima dela e saciar todo aquele desejo. Mas ela se esquivava, prendia suas mãos no colchão e o provocava vagarosamente, enlouquecendo o rico empresário. Lucy beijava-o por inteiro, passava a mão macia da sua presa em seu corpo nu. O coração de Paulo palpitava e clamava pelo corpo e sabor da mulher.
Lucy calculava cada passo onde pisava. Vão à banheira, onde deita seu homem, que já estava totalmente fora de si. Lucy faz tudo que Paulo quer e no ápice do prazer, tira debaixo do seu roupão uma corda e enrola nas mãos e pescoço do seu alvo. Paulo pergunta o que está acontecendo e ela apenas responde estar deixando mais interessante à “brincadeira”. Paulo estourando de desejo concorda e continua, ela o olha como se fosse comê-lo aos poucos e conclui a noite de prazer asfixiando seu mais novo amante. Lucy serve-se com uma taça de champanhe e observa sua presa estremecer até o último suspiro, ao som de música clássica. Sai da banheira, veste-se e caminha de encontro à porta com mais alguns milhões.
Lucy, a partir de então passa a se chamar Anita e com o mesmo vestido de seda vermelho, marca mais um x na agenda preta de capa aveludada.

Por Universo das Palavras
Fonte: Google Imagens

domingo, 14 de setembro de 2014

O Pedido

Tic tac, tic tac, tic tac...

Ela olha o relógio e o telefone a cada 30 segundos.

Tic tac, tic tac... trrrrriiiimmmm

O telefone tocou.
   - Alô!
   - Oi, por gentileza, a Raquel?
   - Desculpe meu senhor, mas se equivocou com o número.
   - Tudo bem, obrigado!

Tic tac, tic tac, tic tac...
   - Esse telefone que não toca!
 Dim dom, dim dom
   - Não, campainha agora não! 

Ela abre a porta com rispidez e o semblante ansioso e enfurecido é encoberto por um lindo buquê de rosas vermelhas, escondendo um pedido:
   - Oi, perdi seu número, adorei a noite passada. Sai comigo?

Ela tira o relógio, desliga o telefone, coloca o buquê sobre o sofá, fecha a porta e sai sem lembrar do tempo.
Por Universo das Palavras
Fonte: Google Images

domingo, 30 de março de 2014

Despedida

Lá fora a chuva cai silenciosa e traz em cada gota a saudade que machuca ao lembrar-se dos nossos momentos. No rádio, toca a nossa música.
Espero-te todo dia, olhando pela janela - que agora está embaçada pela chuva e ofusca meu sofrimento. Busco ao longe seu assobio ou o som da tua voz, que todas as noites sussurrava em meus ouvidos, mas as notas que ouço atrapalham minha audição e alimentam minha mente dos nossos instantes.
Algo queima meu rosto e dói por dentro. São lágrimas que escorrem por minha face, enquanto embaraçam meus olhos ao aguardar – utopicamente – sua chegada.
Nossa cama está pronta e vazia, com o travesseiro e lençol que tanto gosta. Sobre a mesa está o vinho e as taças, que adornam nosso ninho.
Enquanto vaga, minha mente recorda da nossa última noite. Fizemos amor como nunca! Foi eufórico, extasiante e inesquecível. Suas mãos carinhosas que tocavam meu cabelo. O abraço forte que afagava meu medo e ansiedade. E os lábios? Ah! Como eram macios e adocicados. Seu corpo quente e abrasador ao tocar no meu acendia todas as fantasias e loucuras, que juntos realizamos.
Seu suor misturava ao meu, enquanto nossos olhos vibrantes se encontravam em busca do infinito e as bocas entreabertas, com sede de prazer, buscavam o saciar do sentimento mais intenso que juntos já experimentamos.
O prazer e a magnitude daquela noite vêm como um delírio em meus pensamentos, arrepiando todo meu corpo e intensificando meu choro incessante.
Hoje sei que foi, apenas, uma forma de despedida.

Por Universo das Palavras
Fonte: Google Images


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Casebre lá dos Fundos

Todas as noites, dona Verônica estava em sua cadeira de balanço olhando para o céu e fazendo tricô. Cada balançar de sua cadeira fazia com que o ringir dá tábua velha do assoalho escondesse os múrmuros e sussurros que vinha lá de dentro. 
Verônica era uma senhora viúva com cerca de 60 anos que vivia nas redondezas de Survivor, um pequeno município de interior, continha pouco mais de três mil habitantes. Desde que nasceu viveu naquele lugar. Seus pais morreram e lá continuou. Nunca se casara, nem filhos tivera. 
A cidade de Survivor era conhecida pelos muitos casos de desaparecimento de crianças. Todo ano cerca de 20 crianças desapareciam. Sempre que descobriam alguma gravidez na região, as igrejas começavam grupos de orações e cultos rogando pela vida da inocente que estava por nascer. Porém poucos conseguiam sobreviver. 
Policiais e investigadores buscavam solução para o problema, mas não conseguiam solucionar o caso. Nem mesmo os corpos eles encontravam. Havia mais de 800 famílias atormentadas pela dor da perda. Houve apenas uma criança, há 15 anos, em que surgiu em um terreno baldio com o corpo totalmente “fatiado”. A única pista que os investigadores tinham. A partir daquele dia passaram a procurar animais ferozes pela redondeza, além da antiga cogitação de que existia um maníaco por aquelas bandas 
Dona V., como era conhecida, sempre ia à cidade e ficava horrorizada com as histórias que ouvia sobre as crianças desaparecidas. 
Certo dia os investigadores resolveram ir para uma mata que tinha no fim da cidade, perto de onde a dona Verônica residia junto com seus cachorros. Ao entardecer resolveram chegar até a casa da simpática senhora para pedir-lhe um copo d’água. Ela os recebeu com muita hospitalidade, ao invés de apenas um copo de água ofereceu-lhes um café e algumas bolachinhas. Como estavam o dia inteiro caminhando ali por perto resolveram aceitar o convite da senhora e tomar o café. O que eles não esperavam era que aquele café seria o desfecho de algo há 60 anos em andamento. Enquanto estavam sentados à mesa saboreando as deliciosas bolachinhas, um dos investigadores ouviu um choro fraco, quase sussurrado vindo de alguma porta nos fundos da casa da doce senhora. Então a perguntaram de onde viera aquilo ou o que era. Ela respondeu, com receio, que não sabia. Então deixaram de lado e resolveram continuar o café. Alguns minutos depois o choro voltou e continuou, intrigados os visitantes pediram para dona V. deixar-lhes ir até os fundos para ver de onde viera aquilo. Sem hesitar a senhora levou-os até o local e voltou para dentro de sua casa. 
No quintal tinha um casebre velho, quase caindo, onde os investigadores resolveram entrar. Lá dentro era cheio de teias de aranha e móveis velhos cobertos com lençóis. Ao andar pelo casebre no canto direito quase embaixo de uma escrivaninha velha o som do assoalho mudou, ficando um pouco oco. Então resolveram abaixar e procurar algum porão ou tábua solta. Nesse momento o choro já não mais existia. Ao abaixar encontraram uma alça, feita de ferro, que ao puxar abria uma pequena porta. Uma escada que de mais ou menos cinco degraus dava passagem a algum lugar, escuro e fedorento, então um dos investigadores desceu para ver o que estava guardado lá, quando de repente a porta do casebre bateu com estrondosa força. Era a dona V. com uma velha garrucha em mãos e um pequeno caderno de capa marrom no bolso direito do avental azul que usava. 
Num estalo a garrucha foi disparada e os dois correram para detrás dos móveis escondendo-se da senhora. Dona V. os chamava e dizia que o porão era o seu paraíso, onde seus filhos moravam e que não podiam mexer, era particular. 
Os rapazes assustados tentaram conversar com ela perguntando por que esconder tanto algo, já que era um paraíso, que os deixasse ver e usufruir dele. Ela caminhando devagar dizia baixinho e com voz doce que era só um local em que queria deixar preservado sem que ninguém soubesse, já que era sagrado para ela. De repente dona V. sumiu e um estrondo enorme ouviu-se, os rapazes correram ao encontro da velha que já estava caída coberta de sangue na cabeça. Verônica atirara na própria cabeça. Os rapazes voltaram ao casebre para ver o que tinha dentro do porão. Ao entrar um cheiro horrendo se alastrou, o calor era infernal e a visão ainda pior. Mais de oitocentas cabeças cortadas e penduradas em varais feitos de nylon, os corpos jogados no canto da parede de terra, podres. Era perceptível o rosto das crianças limpos e sempre com uma marca de batom vermelho claro na face direita de cada um. A mesma cor do batom que dona V. usava. 
Ao voltar para a delegacia um dos investigadores tirou do bolso um caderno de capa marrom, aquele que a dona V. guardava no avental. Era um “diário”, em que ela escrevia sobre cada uma das crianças mortas, como fazia para capturá-los e porque cortava suas cabeças. Ela os tinha como filhos, já que não tivera filho durante toda sua vida. 
Verônica sofria de um distúrbio mental. Seus pais morreram quando ela tinha 20 anos e a partir de então sentia-se muito sozinha e todos os dias ficava observando a felicidade das crianças com seus pais, passeando pelas ruas ou saindo da escola, foi enquanto que a obsessão e os desaparecimentos começaram. 
Os investigadores acreditavam que o choro que ouviram era da alma de alguma daquelas crianças para salvar as tantas outras, que a demente senhora V., iria, ainda matar. Foram lidas apenas duas páginas do diário, já que as palavras eram escritas com sangue, que Verônica guardava em um tinteiro sobre a velha escrivaninha no casebre lá dos fundos.

Por Universo das Palavras

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

As Pedras

Num bosque viviam duas pedras. A Rocheli e a Pedrina. Dois pequenos seres calados, nunca saíam do lugar, nem mesmo se entreolhavam, todos os moradores do bosque as chamavam de arrogantes. Ambas viviam lá, paradas, estagnadas, fingindo que o tempo não passava e para elas realmente não passava. Todos que pelo bosque caminhavam, tropeçava em uma delas. Mas continuavam sempre lá. Os tropeços geravam xingamentos, raivas, machucados e raiva. Mas mesmo assim nunca tiravam-nas do lugar. Todas as manhãs um senhor de cabelos brancos sentava em um banco defronte às duas pedras e as observava, via o quanto as pessoas não se importavam com elas, as tratavam como "pedras". Ele sempre dizia a mesma coisa para quem por lá caminhava:
_Filho, tire essa pedra! Mas ninguém nunca o fez. Até que certo dia, um menino de pouco mais de onze anos, passava com uma caixa de engraxate pelo bosque e, como de costume, também tropeçou nas pedras. Olhou a elas e disse:
_ Poxa vou tirá-las daqui, se eu tropecei qualquer um pode fazer a mesma coisa e se machucar. Ao levantar as pedras com grande surpresa o menino encontrou dois buracos encobertos por pedrinhas de ouro. O garoto não sabia o que fazer, olhava para um lado e outro tentando descobrir de quem era aquilo o que fazia e porque estava lá e ninguém tinha encontrado ainda. Ao olhar para trás o senhor grisalho de livro nas mãos sentado no banquinho velho o observava de com um sorriso suave no rosto. O garoto então perguntou-o:
_ Meu senhor isso é seu?
Com toda a serenidade do mundo e sabedoria o senhor disse:
_ Parabéns meu filho, sua hora chegou, leve as para casa. São todas suas. Sem nem pensar o garoto colocou as pedras dentro da caixinha de engraxate, perguntou ao senhor se ele queria algumas, e correu para sua casa mostrar à família o que tinha encontrado e que agora não precisariam mais viver na miséria. 
Naquele mesmo dia Rocheli e Pedrina desapareceram e o senhor não foi mais visto por aquelas bandas.
"Na maioria das vezes pedras são colocadas em nosso caminho para nos mostrar algo, não existe nada mais simples que levantá-las e tirá-las de lá. Sempre que uma pedra existir no seu caminho tire-a, não fique reclamando, nem se lamentando ou julgando alguém por estar acontecendo algo. Não são reclamações, nem lamentações que mudarão sua vida e sim o seu ato... Então tire as pedras do seu caminho!"
Certa vez num grande centro urbano existiam duas pedras, Rochele e Pedrina. As duas atrapalhavam a caminhada das pessoas do local. Num banquinho de frente a elas, todos os dias, estava um senhor grisalho e com um livro em mãos, observando tudo que...

Por Universo das Palavras

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A Idéia

No coração da bela moça sempre houve a beleza e a esperança de dias melhores. Desde pequena buscava em seus atos agradar a todos e ser sempre compreensiva. O tempo foi passando pessoas ela conheceu, momentos ela viveu, sentimentos ela experimentou e decepções a entristeceu. Sua vontade não era mais de estar ali naquele lugar, onde nasceu, cresceu e naquele momento vivia. Conquistou o respeito de muitas pessoas, amizades de uma vida. Fez sua vida. Apaixonou-se e foi "espancada" pelo amor. Chorou noites e noites. Aquela esperança que um dia a fazia feliz agora já não existia mais. Seus olhos eram nublados, nublados por sentimentos impuros de um coração maltratado pelo tempo. Com o passar dos anos ela percebia que não existia cumplicidade, nem mesmo reciprocidade, a vida era negra e aquela pureza que sempre teve foi em vão. Os dias se passavam e não saía da mente da bela moça que a única solução era... O coração revidava, mas a mente continuava persistindo naquela mesma ideia "insana". No peito apertado e magoado por aqueles por quem ela sempre se dedicou, havia uma voz que gritava, pedia por socorro. Não havia nada a ser feito a não ser aquilo que por hora "atormentava" sua mente. Certa noite duas crianças brincavam pelo jardim da cidade e observaram algo que lhes chamou atenção. Uma moça de olhos claros, capuz preto e um esquisito vestido branco, conversando com os peixes na beira de um lago. Enxergavam somente seu rosto e mãos. Era a mesma bela moça que cansada da tristeza que o mundo lhe reservou entregou pra quem realmente merecia a vida que lhe concedera. Deus.

Por Universo das Palavras


domingo, 21 de outubro de 2012

No silêncio do escuro

Um sonho dividido entre dois mundos
A verdade ou a mentira?
Aceitar ou encerrar tudo de vez?
Esperar cada passo, guardar cada sentimento
Imaginar um beijo, “sentir em pensamento”. 
Um labirinto separando duas almas “imortais” 
Dividas em mundos surreais. 
Ela de Marte, ele de Vênus 
Uma porta aberta e um espaço pequeno. 
Pelo labirinto ela corre 
Procurando a saída mais rápida. 
Contra o vento ela luta e de longe um grito escuta. 
Dois mundos, duas almas 
Perdidas no tempo e no destino 
Querer e não poder. 
O desespero aparece, as lágrimas começam a rolar 
Ao longe ela o vê de braços abertos, óculos escuro e sorriso largo no rosto branquinho e corado pelo vento gelado. 
Corações palpitando, pulso forte, rosto suado e respiração ofegante. 
Um abraço apertado. Dois mundos entrelaçados. 
Ele parado sentindo o corpo quente de sua amada e ela o olhando, admirando sua beleza. 
Amor impossível e utópico mesclado com realidade. 
Em suas costas um labirinto vazio e ultrapassado. 
Os dois, de mãos dadas, seguem o caminho no lindo jardim verde que ele não vê e ao som dos pássaros que ela não ouve. 
A cegueira e surdez de braços dados em busca do amor, agora possível e aclamado.



Por Universo das Palavras

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

O Presente

A porta abre e ele entra. 
_Olá querida, boa noite! Como estou cansado. Hoje no escritório estava uma correria. Cobranças e mais cobranças. O Fábio faltou hoje, tive que trabalhar por dois. Não via a hora de chegar em casa pra comemorarmos com um bom vinho! Aconteceu alguma coisa, amor? Você está tão quieta – mulher com cara fechada, sentada à beira do sofá com malas a sua volta -. 
_ O que são essas malas? Você vai viajar? Tem alguém aqui em casa? Sua mãe vem passar alguns dias conosco? Fala alguma coisa, por favor! 
_ Quem é ela? Por que você fez isso Ricardo? De onde ela é, aonde você a conheceu, foi naquela festinha na casa do Luiz? Por que não me contou? (Ela o estapeia, chorando, gritando eufórica). _ Jamais imaginei que você faria isso comigo! Essas malas são suas, quero que você desapareça dessa casa, nunca mais coloque os seus pés aqui dentro, seu idiota, covarde, cínico... Eu já deveria imaginar, chega todo dia com abraços e todo bonzinho. Comemorar o que? O aniversário da outra? Some daqui Ricardo, vai embora, vai morar com ela! (Chorando desesperada) 
_ Não existe ninguém Mônica, não há ninguém. Eu te amo e sempre amei, você sabe disso. Eu nunca fiz nada, não sei do que você está falando! 
_ Não se faça de bobo, Ricardo. Porque se tem uma coisa que você não é, é bobo. Então pegue as suas coisas e desapareça daqui. 
_ Mas meu amor, eu não fiz nada. Acabei de chegar em casa, estou cansado e ainda te convidei pra comemorarmos. 
_ Comemorar o que Ricardo? Ah! Aqui está o presente que encontrei no meio das suas coisas, pra você entregar a ela e o vinho que separou pra beberem juntos. – ela joga o presente – leve e desapareça daqui! 
Ele pega as malas, coloca o blazer nas costas, dá um beijo na cabeça da esposa lhe entrega o presente e o vinho e diz: 
_ Parabéns pelo nosso 7º aniversário de casamento, espero que o presente seja do seu gosto. 
E sai pela porta da frente de cabeça baixa, chorando. 
Ela fica, com o presente em mãos, boquiaberta e com a maquiagem toda borrada.

Por Universo das Palavras

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Fotografia


Vejo lágrimas caindo por dentre linhas profundas que marcam o rosto sofrido, daquela que um dia sorriu de verdade. Cada passo dado é uma lágrima deslizando pelas trilhas que o tempo deixou. Na mente a lembrança de uma infância pobre, mas feliz. Pais amorosos, irmãos carinhosos.
Os galhos que hoje queimam, um dia, foram uma casa, um refúgio, onde com seus livros ela viajou para Londres, Paris, Grécia, Egito... e até mesmo ali do lado. A corda que arrebenta fio a fio e evapora com a fumaça, suportou crianças de todos os jeitos e tamanhos, proporcionou voos altos mesclados com fortes gargalhadas e momentos intensos e eufóricos. O banco que ficava no jardim embaixo da mesa de madeira, que hoje estala despedindo-se, leva consigo promessas e segredos compartidos entre amizades sinceras e que se apaga em cinzas e some com o vento. Cada móvel, cômodo... vai embora deixando somente a saudade do passado.
E aqui, fica guardada na memória a “Era” em que nada preocupava, tudo era considerado normal e as marcas que o tempo deixou para lembrar tudo aquilo que a “Era” também causou. Sua casa desmanchara por conta do fogo que roubou toda a alegria de alguém que carrega, somente, um estômago vazio e uma fotografia de família.

Por Universo das Palavras

sábado, 7 de julho de 2012

Metamorfose

Houve um lugar onde não existia cor, um bosque com árvores secas, coberto pela escuridão. Nesse lugar nem o sol chegava. Os raios fugiam. Um lugar onde a tristeza reinava, a solidão era companhia. Podia-se dizer que vida não existia, pois os seres da floresta fugiam. Não saíam de suas casas, nem tocas. O medo rondava cada galho seco das árvores ou caídos no chão. O vento que soprava era forte, mas passava rápido pelo receio de não “sobreviver”, o ar que lá existia era sujo e comprimido, sufocante. Mas no meio de toda aquela assombrosa visão nasceu uma margarida branca. Nesse dia os elfos saíram de suas casas, curiosos para ver algo tão lindo em um lugar tão arrepiador. Abaixo da flor o capim era verdinho, como se tivesse vindo do paraíso. De repente a flor acorda. Então, as árvores brabas começaram a pressionar a tão delicada plantinha, pedindo para que ela falasse o que estava fazendo no bosque delas. Gesticulavam balançando os galhos secos, batendo umas nas outras quebrando alguns brotos que estavam a nascer. A florzinha mesmo apavorada não respondia o porquê de estar lá, seus olhos brilhavam, mas não conseguia pronunciar uma palavra. Então, abelhas pretas, a mando das sombrias árvores vinham em sua direção rondando e ameaçando sugar todo o seu pólen, mesmo assim a branca flor não mencionava uma palavra. Cada vez mais as os troncos, árvores, lama... chegavam perto sufocando a flor. Foi então, que o pequeno escol chorou. Suas lágrimas caíram lentamente, tocando a terra seca e por estranho que pareça, a terra fertilizou. Sentiu-se vigorada. A flor então assustada, olhou para baixo e percebeu que mais espécies como ela começavam a nascer, percebeu também que o verde começava a se espalhar pelo chão tristonho e irritado. Olhou para suas pétalas e viu algumas lágrimas ainda escorrendo e mesmo sem pronunciar uma palavra soprou as gotas nos troncos das árvores, que foram renovando, ficando verdes, com novos brotos. A nova flor que nascia percebendo a transformação tocou a lama que se tornou um límpido lago e assim foram até conseguirem deixar a floresta incolor, colorida, cheia de vida. Espantou a tristeza e raiva, renascendo a felicidade e a bondade. Os seres da floresta, começaram a sair, encantados com tanta beleza. Lá no céu o sol nasceu quentinho, aquecendo as gotas do orvalho que surgiram. Porém mesmo com toda essa mudança da tão delicada e pequena flor ela não disse nenhuma palavra, somente sorria. Foi então que os capins debaixo dela olharam para ela se comunicando através de sinais. A flor não falava. 

Por meio dessa simples história, quero dizer, que não importa como seja alguém, não importa se ela é diferente ou não, saiba conviver com as diferenças, aprenda a lidar com o ser humano de uma forma carinhosa, simpática, acolha bem o novo, sugue dele aquilo que trás de bom. Seja simpático, seja acolhedor. São pessoas boas que nos transformam. Não precisa ela falar uma só palavra, deixe que sua bondade e vontade de ajudar floresçam. Pessoas assim, são mandadas por Deus e por mais triste e inesperada que seja sua estadia, vem sempre para deixar colorido aquilo que transformamos em preto e branco. Portanto repito: saiba ser acolhedor. Seja como o Pai ensinou: ame seu próximo como a si mesmo.

Por Universo das Palavras

domingo, 24 de junho de 2012

Guerra

Naquela manhã o céu não clareou. Era possível ouvir barulhos de pássaros famintos pela carne que apodrecia lá fora, molhadas pelos pingos de chuva e o sangue derramado. 
Almas inocentes meramente mortas por monstros inescrupulosos e amaldiçoadas pelo ódio. Berros e choros de desespero. Famílias debruçadas em corpos, ainda quentes, de sangue corrente espalhado pelo medo e a dor. Nas ruas tanques, fardas, tiros, tristeza e agonia. Olhos imergidos em lágrimas despediam-se de todos de tudo, rogando por piedade. Nas paredes e muros, homens, mulheres, idosos, crianças e jovens, encostados nus com armas em suas costas. “Bestas” riam, com suas funestas almas, riam da dor, do medo. “Bestas” malditas desgraçadas pelo tempo e enrijecidas pela frieza, ‘destilavam’ vidas, sem medo do pecado, sem sentimento de culpa, sem consciência de dor. Um vilarejo povoado pelo medo e excomungados pela “doença”, “doença” do desrespeito, do desgosto. 
Assim suportaram até os últimos minutos, almas entorpecidas pela amargura e finalizadas por projéteis impiedosos. Olhos fechados à força. Gritos e berros de sofrimento espalhados pelo vento, atingindo a todo o hemisfério, na busca incessante de uma ajuda encontrar.

Por Universo das Palavras
*A Guernica, obra pintada por Pablo Picasso no ano de 1937, onde representa o bombardeio acontecido no mesmo ano na cidade espanhola de Guernica. Saiba mais clicando aqui.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A última música

Noite escura. Sem luar, sem estrelas. Apenas o vento, a chuva, o frio, nada mais, nada além. E para esquentar, um cobertor e chocolate quente. A música é a única companhia. Olhando pela janela as gotas de chuva caem descendo vidro abaixo. A mente vagando sem destino, trazendo lembranças de tudo que aconteceu durante a vida. Cada pessoa que conheceu cada momento que passou cada chuva que tomou cada sorriso que conquistou cada beijo que experimentou cada olhar que cativou cada dúvida que criou e desvendou cada toque que deu e recebeu cada movimento que fez e sentiu. Cada hora, cada minuto, cada segundo. Cada ano, cada mês, cada dia. Tudo envolvido em uma vida. Tudo passa tão rápido. Hoje você nasce amanhã não mais está aqui. Tudo tão complexo. Um mundo tão grande, uma vida tão pequena. Muito pouco tempo para gozar da felicidade sem fim. Quantas lágrimas rolaram, quantas brigas aconteceram. E as gargalhadas? Quantas existiram. A, as músicas, quantas músicas marcaram. Tudo tão repentino, tudo tão intenso. Hoje levanto, à tarde não sei se vou me deitar. Hoje adormeço. O amanhã é um mistério, não sei se farei parte dele.

Se soubéssemos o valor de viver, não desperdiçaríamos tempo dormindo. Não perderíamos tempo chorando. Esqueceríamos dos problemas e viveríamos intensamente. Não sofreríamos adiantado. Comeríamos menos e cuidaríamos mais da saúde. Sonharíamos mais. Reclamaríamos menos. Seríamos protagonistas e não figurantes.
Uma dimensão de prazeres e não sabemos aproveitar. Medo? Medo do que? De viver? Não, não existe medo. Existe insegurança. Não deveria, mas existe. Ela nos faz pensar. Faz-nos desistir de sonhos, mesmo sendo sonhos. Faz-nos ver o lado “ruim” da existência humana. Mas o que seríamos de nós sem ela, sem a insegurança? O que seríamos de nós sem a dor?
A música para, ou acho que está parando, sumindo de vagar na atmosfera. Sinto-me longe. Onde estou, para onde vou? O que está acontecendo? É a alma. Uma luz lá no fundo. Cheiro de rosas, som de harpas, liras, coros magníficos. Não era essa música que ouvia, mas essa é melhor. Fecho os olhos e sigo sem destino, sem medo de cair, sem insegurança. 
A luz aumenta e uma voz linda “recita” meu nome. 
Tenho que ir, me chamam! Agora estou longe, não tem mais volta. Não tem como ir lá novamente. Mas aqui é bom também, melhor que lá. Gostei do cheiro das flores, do som das harpas e liras. Farei novas amizades. De lá? Ah! A única coisa que lembro é a música. A mais bela, maravilhosa e significativa música. 
Lá embaixo os olhos se fecham. Não existe chuva, não existe vento, não existe chocolate quente, não existe cobertor. É tudo fictício. Existe apenas a música. É, aquela que ficou, isso mesmo. A última música. 


Por Universo das Palavras

sexta-feira, 23 de março de 2012

Encontro 'Marcado'

O horizonte esconde histórias, de reis rainhas, princesas e príncipes que se aventuraram por amores impossíveis e jamais acreditados. Histórias marcantes que fizeram senhores e senhoras, homens e mulheres, adultos, jovens e crianças chorarem. Não foi Cleópatra, nem Júlio Cezar, muito menos Romeu e Julieta, foram jovens casais apaixonados que deram suas vidas por um “Felizes para Sempre”. 
Na terra onde o namoro era virtual e pessoas se apaixonavam por fotos editadas no photoshop não era diferente, atrás das montanhas feitas no paint e coloridas com cores quentes do próprio programa, palavras ocultas viviam passeando por telas e teclados de mentes abertas e maliciosas, mas que no fundo guardavam um amor sincero e bonito, assim como de casais de novela mexicana. 
Foram anos e anos sonhando com aquelas palavras trocadas por e-mail e redes sociais, apaixonados por expressões jamais ouvidas ou pronunciadas pelas próprias bocas movidas por mentes sadias e sonhadoras. Cada letra escrita e lida, cada código digitado, cada foto compartilhada, cada música enviada, sonhos compartidos. Casas compraram, filhos tiveram, segredos trocaram... Uma vida construída atrás daquela tela. Noites de carência, saciadas por um sonho dividido entre dois mundos diferentes. 
Brigas ocorreram, por festas acontecidas, gírias ela aprendeu, poesias ele leu, livros leram juntos, filmes por webcam, músicas por fones de ouvido... Tudo na Era Digital, um amor verdadeiro separado pela distância de uma rede telefônica ou de um quarteirão. 
Numa noite estrelada um casal se encontra na esquina de suas casas. O homem de veste esporte caminhando sem direção, a moça de vestido simples passeando por aí. De repente dois olhares encontrados pelo cupido, eram aqueles que pelo computador trocavam juras eternas de amor, dias e noites atrás daquela surrealidade. Nunca se viram, nem se sentiram, só fotos, vídeos e letras, perdidas em mesas e escrivaninhas e descobertas que estavam logo ali. Juntos pelo acaso, encontrados pelo destino. Menino e menina abraçados, beijos e abraços trocados e deparados pelo ínfimo encontro complexo e desconectado, encoberto por uma esquina. 

E assim acaba a história, não era Eduardo e Mônica, mas aqui cabe o nosso saudoso Renato Russo “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração?”.

Ah! E os dois viveram felizes, com tropeços e brigas, para sempre.

Por Universo das Palavras



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O rio que desce

Ao longe um barco levando embora o alicerce de uma família sofrida. Vidas que vão junto com o vento soprando as ondas que fazem no rio, carregando em seu lombo mais um. 
Há alguns dias ele brincava junto às crianças e hoje desce o rio dentro de uma embarcação deixando saudade, lágrimas e tristeza. É possível ouvir gritos e berros de dor. Dor que corrói internamente perfurando o coração daqueles que ficaram. 
Mas a vida é assim ninguém sabe o dia de ir embora. Como todos dizem a vida é um mistério, mas a morte é ainda maior.

Por Universo das Palavras


Ódio do desejo

Sobre a mesa vejo frutas, derrubadas após um briga. Briga de dois amantes, separados pelo ódio que nasceu no coração daqueles que juntos foram felizes durante muito tempo. 
No chão, pratos quebrados, despedaçados pela dor de duas vidas em vão. Na parede branca era possível ver as marcas da raiva, do desespero, da tristeza e decepção. 
A cozinha tinha seus móveis bagunçados, cadeiras caídas e quebradas, talheres por todos os lados. O que estava acontecendo? Amores sinceros que se perderam no mundo da desilusão. 
Há rastros pela casa, em direção ao quarto, roupas pelo chão com marcas de desejo mescladas ao ódio e a pressa para amar. A porta do quarto silencioso está aberta, sobre a cama um casal apaixonado, dormindo abraçados, esperando o dia amanhecer e apagar o que aconteceu na noite anterior.

Por Universo das Palavras

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Adeus

O dia amanheceu. Era chuvoso. As nuvens escuras e misteriosas tapavam o sol e o deixava sem respirar, com apenas alguns dos teus raios brilhantes para mostrar que ainda era dia. Um homem. Um banco. Uma esfera. Uma dimensão. Em seu pensamento as estrelas fugiam, o sol as assustava. Seu pensamento era turbulento. Os olhos se mantiveram fechados o tempo todo. Uma perna sobreposta à outra e os braços sob a cabeça. Descansar em um banco, deitado, sentindo o vento e os pingos de chuva cair sobre seu corpo, num sono profundo? Não! Se despedindo do mundo, do vento, das nuvens, do sol, das estrelas, das árvores, das gotas de chuva... O sentinela chega, um último adeus. Um estrondo, depois o silêncio, cabeças baixas. Logo chegaram as aves catartídeas. Agora tudo acabou, o dia escureceu ainda mais, as aves terminaram e foram embora. A alma já havia encontrado seu caminho. A ossada se decompôs e, só, restou na lembrança o último Adeus.
Por Universo das Palavras

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Insanidade

Naquele dia o sol não nasceu. Cânticos se ouviam no fim da rua, cânticos de sofrimento. Gritos de dor e arrependimento. Na mão da menina um corpo. Sangue sujavam suas roupas brancas do ano novo. Ano que se iniciou com uma tragédia, jamais esquecida pelos olhos da população daquela cidade. À noite fora tão agitada que não foi possível salvar nem mesmo a vida do pobre moço apaixonado. A nebulosa névoa que cobrira o céu da manhã, mostrava a desgraça que acontecerá na noite passada. 
Risos. Gargalhadas. Brincadeiras. Superstições. Crianças até tarde brincando. Estouro. Champanhe. Fogos. Cumprimentos. Abraços. Beijos. De repente um estrondo. Sangue. Correria. Copos e garrafas quebrando. Gritos. Choro. Berros de desespero. Medo. A luz se escondeu. A rua ficou vazia. Para onde foram todos? Não se ouve vozes, nem cochichos... somente passos vagarosos e olhos arregalados. Chacina? Não! Acerto de contas. Ele roubara sua namorada e agora o moço de capuz preto ferira dois corações, um com um tiro e outro com a morte de quem ela mais amava. Vidas em vão em uma noite qualquer de um ano que mal começou.
Por Por Universo das Palavras

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Sertão brasileiro

A lua era forte, na melancólica noite em que Helena adormeceu eternamente. Dias quentes de verão declaravam a seca do sertão. Sem água, sem trabalho, sem comida, sem vida. Assim se encontravam os nordestinos, procurando formas de não deixar os filhos passarem fome. Famílias com seis, sete filhos dormindo em casebres, bebendo a água da chuva e comendo o que o pai conseguia para colocar em casa, às vezes apenas farinha. Farinha e água. Alimento que quando saciava a fome de todos, significava fartura. 
Assim vivia a família de dona Helena, uma boia-fria moradora do sertão nordestino, mulher, mãe, guerreira... D. Helena era mãe de 6 filhos, cujo mais novo tinha 7 meses e o mais velho 14 anos. Viúva e boia-fria, trabalhava junto com os três primeiros filhos para conseguir levar o que comer para dentro de casa. Jorge, o filho mais velho – 14 anos – ajudava a mãe no canavial. Simão e Gilberto – 12 e 11 anos – trabalhavam como engraxates. Solange – 10 anos – essa ficava em casa para cuidar dos outros dois irmãos, Suzana – 3 anos – e Sérgio – 7 meses.
O pai morrera de malária há alguns meses, d. Helena, a partir de então passou a trabalhar para sustentar o lar, ou melhor, para mantê-los vivos. Todas as noites a batalhadora viúva chorava e pedia para que o Senhor lhe concedesse saúde e força para que pudesse sobreviver e cuidar dos filhos. 
A água, na casa de dona Helena, era escassa, o poço que abastecia o pote estava secando, mas os vizinhos a ajudavam fornecendo pelo menos água limpa para as crianças saciarem a sede durante o dia, os banhos eram tomados no rio longe de casa, onde ela também lavava roupas. O café da manhã era um copo de água que os vizinhos lhe davam, o almoço feijão e farinha, às vezes tinha sal para misturar; o jantar era a sobra do almoço. Comiam os mais novos, porque os mais velhos já eram fortes o suficiente para aguentarem a fome. A casa onde viviam era feita de barro, divididos em dois cômodos, cozinha e quarto, sem mobília, com somente um fogão de barro e uma mesa feita de tijolos. A cama eram folhas de bananeira com cobertores encontrados em um aterro nos arredores. 
Em uma noite estrelada de lua clara, dona Helena saiu para pedir um pouco de água a algum vizinho, porque o mais novo tinha fome e o leite já havia secado. D. Helena não aguentando ver a criança chorar de tanta fome foi procurar alguém para lhe dar um pouco de água. O bebê chorou até adormecer, as crianças também e d. Helena não voltou. Seu corpo foi encontrado na manhã do outro dia. Jorge saíra para procurar a mãe e encontrou-a caída a 2 metros da casa com uma caneca de água em mãos. 
Dona Helena havia encontrado o que procurava, mas não aguentou a fome, nem a sede, perdendo as forças no meio do trajeto, o que saciaria a fome do filho poderia ter feito com que ela sobrevivesse, mas o destino não quis assim e a batalhadora mulher de 38 anos morre no sertão nordestino por desnutrição e desidratação. 
Os filhos de dona Helena continuaram vivendo na casa durante alguns anos, o bebê não suportou tanto tempo e alguns meses após a morte da mãe faleceu, Jorge, Solange, Simão, Gilberto e Suzana conseguiram sobreviver e continuam trabalhando no canavial, lutando contra doenças, fome, sede... e sofrimento.

Por Por Universo das Palavras


Sonhar, instantes de fascinação

Pequenas crianças que me rodeiam, faz com que dias felizes e melhores se tornem realidade. Durante essa noite, sonhei com um pequeno bebê de cabelos encaracolados, o qual comigo ficou durante um bom tempo, rindo, brincando e ‘sendo criança’, fazendo com que as horas da minha noite voassem. O bebê que por mim havia sido encontrado, estava perdido, deveria ter seus 2 anos, em média, garoto risonho, pele morena clara, cabelos castanhos claros encaracolados, rosto redondo, sorriso suave e angelical. Sua imagem não saiu da minha cabeça o dia todo, não é a primeira vez que sonho com crianças e todas sempre me fazem muito bem, tanto durante a noite, quanto durante o dia quando lembro. 
A simplicidade da felicidade do garoto me encantava, as brincadeiras “bobinhas”, os gestos de carinho, tudo me fascinava, contudo ele estava perdido e precisava encontrar sua mamãe, que com certeza o procurava desesperado, foi então que sai com ele para que a encontrássemos e na esquina da minha casa estavam duas mulheres procurando a criança. Entreguei-o e ele se foi acenando e sorrindo, com aquele rostinho de anjo que jamais será esquecido pela minha mente.
Por Por Universo das Palavras


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Enganados pela lua

O frio da campina acompanha todos que lá moram. Lá o ano ainda não passou, estão todos esperando para a chegada do verão, porém enquanto é inverno aproveitam suas lareiras e chocolates quentes para contarem histórias, sentados ao chão. 
O lugar é um dos mais bonitos já vistos em todo o mundo. As casas cercadas por capins verdinhos e macios. De manhã o orvalho que cai das folhas deixa a paisagem ainda mais espetacular. As casas são pequenos chalés, rodeados de árvores altas, com folhas verdinhas, fechadas por cercas de madeira branca e limpa. Ao fundo existe um bosque, que no verão, atrai turistas de todos os lados. Lugar lindo e perfeito para quem gosta do ar límpido e mata verde, durante o dia. 
Contudo mesmo com tanta beleza o lugar reserva histórias assombrosas onde apenas pessoas que já passaram por lá, conhecem. Os moradores do lugar, dizem que nas noites de lua minguante as árvores se mexem, tirando as raízes do fundo da terra, capturando pessoas e a partir de então nunca mais é visto aquele foi capturado. 
Um senhor, conta que sua esposa e filhos foram levados pelas árvores do bosque e afirma também que pequenos serem habitam as copas dessas árvores, mas só saem de suas casas nas noites, porque o sol queima a pele dos “estranhos seres” por não serem cobertos por nada, além da pele branca e reluzente. Dizem também que eles comem alguns dos cogumelos azuis que nascem nas montanhas rochosas ali perto e que o dia em que não houver mais cogumelos, os serem humanos é que servirão de alimento para esses seres. 
Alguns contam que os pequenos monstrinhos já se alimentam de carne humana e por isso as árvores capturam quem passa pelo bosque depois que escurece. Dizem também que a lua minguante é a principal aliada dos “bonequinhos” e das árvores vivas, por ser quando a Lua, o Sol e Terra estão alinhados. 
Poucas pessoas tiveram coragem de enfrentar as árvores e seus moradores, os poucos que tiveram coragem, nunca mais se ouviu falar. 
Essa é a história da Campina dos Seres Azuis e Árvores Vivas. Se alguém, algum dia tiver coragem de passar por esse lugar nas noites de lua minguante tem minha admiração, por mais curiosidade que eu tenha, jamais voltarei para lá.

Por Mariane N. Souza




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